Situação Humanitária em Gaza se Agrava com Ameaças à Atuação de Organizações Não Governamentais
Após a visita do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu a Washington, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou que o Hamas enfrentará sérias consequências caso não desista de suas armas. Essa afirmação faz parte de um novo estágio do acordo de paz mediado pelos EUA com Israel, que teve início em outubro e abrange a reconstrução do território. Contudo, o clima de desconfiança predomina entre os moradores de Gaza, onde a crise humanitária persiste.
A vida dos palestinos em Gaza se resume à luta pela sobrevivência. Em um acampamento improvisado à beira-mar, Oum Ahed, uma mulher de 50 anos, expressa sua frustração com as condições de vida. “As tendas que recebemos foram levadas pelo vento”, conta. “À noite, ouvimos gritos porque as águas sobem e arrastam tudo, até nossos móveis. Desejamos abrigos mais duráveis, pois estaremos aqui por muito tempo”, diz, refletindo a desesperança que permeia a região.
Hamdi Ali, outro residente de Gaza, também não tem grandes esperanças nas negociações com Israel. Seu foco principal é sustentar sua família de oito pessoas. “Estamos sem saber o que nos aguarda e não confiamos em ninguém, exceto em Deus. Os países estrangeiros tiram sarro da nossa situação”, desabafa.
O cientista político e economista Mohamed Abou Jiab analisa a situação: “Os Estados Unidos estão sempre em busca de avançar com seus projetos estratégicos e econômicos na região. Isso deveria facilitar a manutenção do cessar-fogo e a reconstrução de Gaza, mas uma série de desafios técnicos e logísticos está precarizando esse processo”. Ele alerta que questões financeiras ainda precisam ser resolvidas e que é essencial prover cuidados a todos os necessitados.
Israel Ameaça Proibir 37 ONGs em Gaza
Israel anunciou a intenção de proibir a atuação de 37 organizações não governamentais (ONGs) em Gaza a partir de 1º de dezembro. As ONGs têm até a noite de 30 de novembro para apresentar a lista de seus colaboradores palestinos, apesar do contexto humanitário dramático que afeta 2,2 milhões de pessoas na região. O governo israelense acusou dois membros da ONG francesa Médicos Sem Fronteiras (MSF) de terem laços com grupos terroristas.
De acordo com um comunicado do Ministério da Diáspora e da Luta contra o Antissemitismo, as ONGs que não enviarem a lista de seus funcionários, com a exclusão de quaisquer vínculos com o terrorismo, correm o risco de perder suas licenças a partir de 1º de janeiro. As organizações afetadas terão que interromper suas atividades até 1º de março de 2026.
A União Europeia expressou preocupação, alertando que a suspensão dessas ONGs comprometerá a entrega de ajuda essencial. A comissária europeia Hadja Lahbib declarou que a legislação sobre o registro das ONGs não pode ser aplicada em sua forma atual, enfatizando a necessidade de eliminar todos os obstáculos ao acesso humanitário.
Na última terça-feira, países como França, Reino Unido e Canadá solicitaram que Israel tome medidas imediatas em resposta à situação crítica em Gaza. O comunicado do Ministério das Relações Exteriores britânico pede que Israel permita que as organizações não governamentais atuem de forma eficaz e assegure a continuidade do trabalho da ONU na área.
Os ministros das Relações Exteriores de nove países, incluindo Canadá, Dinamarca e Reino Unido, expressaram sua profunda preocupação com a deterioração da situação humanitária em Gaza. O apelo inclui a suspensão das “restrições desproporcionais” que limitam importações essenciais, como materiais médicos e abrigos, além de exigir a abertura das passagens fronteiriças para aumentar o fluxo de ajuda humanitária.
Acusações e Respostas
O ministério israelense afirmou que apenas 15% das ONGs estão sob restrições e acrescentou que “atos de deslegitimação de Israel e processos judiciais contra soldados do Exército israelense” justificam a retirada de licenças. As autoridades alegam que algumas organizações internacionais estão implicadas em atividades terroristas e acusam a MSF de contratar pessoas com vínculos com grupos terroristas.
Em resposta, a MSF defendeu que não empregaria intencionalmente indivíduos envolvidos em atividades militares e garantiu que mantém um diálogo contínuo com as autoridades israelenses. A organização já havia expressado suas preocupações sobre a exigência de envio de identidades dos funcionários. Outras ONGs internacionais já alertaram que a nova regulamentação pode inviabilizar suas operações na devastada Faixa de Gaza, que já enfrenta os efeitos de dois anos de conflitos.
Até o final de novembro, apenas 14 das cerca de 100 solicitações de registro apresentadas haviam sido negadas, segundo o ministério. A maioria das ONGs registradas opera em Gaza e continuará suas atividades, conforme afirmado pelo Ministério das Relações Exteriores, que acrescentou que 99% da ajuda humanitária não será impactada por essas novas regras.
