O pioneirismo do Instituto do Radium em Belo Horizonte
Fundado em 1922, o Instituto do Radium foi o primeiro centro dedicado exclusivamente ao combate do câncer no Brasil. A iniciativa partiu do professor Eduardo Borges da Costa, então diretor da Faculdade de Medicina da UFMG, que buscou apoio do presidente Arthur Bernardes para criar um hospital especializado em oncologia. Localizado em um terreno de 2.000 metros quadrados nos fundos do Parque Municipal, ao lado da Faculdade de Medicina, o instituto possuía uma infraestrutura moderna para a época, contando com 120 leitos, laboratórios de pesquisa clínica, anatomia patológica, microbiologia e química biológica.
O instituto oferecia serviços de Roentgenterapia, um tratamento com raios X para doenças, e Curieterapia, que consistia em aplicar fontes radioativas diretamente no tumor para eliminar as células doentes, preservando os tecidos saudáveis ao redor. Essa inovação posicionou Belo Horizonte como um dos principais centros no tratamento de tumores no país, chegando a ganhar destaque na imprensa médica internacional, como no jornal francês La Presse Médicale.
Marie Curie em Belo Horizonte: uma visita histórica
No dia 17 de agosto de 1926, Marie Curie, pioneira na pesquisa sobre radioatividade, esteve em Belo Horizonte acompanhada da filha Irène. Elas foram recebidas por Borges da Costa, Samuel Libânio e Levy Coelho no Instituto do Radium. Durante a visita, Curie conheceu as instalações e assinou o livro de registro do hospital, um documento histórico que permanece preservado no Centro de Memória da UFMG.
Além de validar o trabalho local, ela trouxe um legado concreto para a saúde pública mineira ao doar duas agulhas de rádio, elemento químico que ela e o marido Pierre Curie descobriram em 1898. Essas agulhas possibilitaram o início imediato dos tratamentos de Curieterapia na cidade, ajudando a salvar vidas e colocando Belo Horizonte na vanguarda do combate ao câncer no país.
Após a visita, Marie Curie enviou uma carta ao professor Borges da Costa agradecendo a acolhida calorosa que recebeu e destacando a importância do trabalho desenvolvido no instituto.
O Instituto do Radium hoje e sua transformação
Em 1950, o hospital passou a se chamar Instituto Borges da Costa em homenagem ao seu fundador. Em 1967, foi incorporado à UFMG, mas problemas estruturais levaram à desativação do prédio em 1977. Entre 1980 e 1998, o local serviu como moradia estudantil. Atualmente, a universidade trabalha em um projeto para restaurar completamente o patrimônio e transformar o edifício em um hospital oncológico moderno, focado em procedimentos médicos e tratamentos ambulatoriais para pacientes com câncer.
‘Simplicidade desconcertante’: o relato de Pedro Nava
No dia seguinte à visita, Marie Curie realizou uma conferência na Faculdade de Medicina da UFMG sobre radioatividade e suas aplicações médicas. Entre os presentes estavam nomes como Juscelino Kubitschek, Guimarães Rosa e o jovem estudante de medicina Pedro Nava. Em suas memórias, Nava descreve a surpresa da elite local com a modéstia da cientista, que se apresentou com um vestido simples e mãos marcadas pelo trabalho com substâncias químicas.
Apesar da aparência discreta, quando começou a falar, Curie dominou o anfiteatro com seu conhecimento, transmitindo uma autoridade que encantou a plateia. No dia seguinte, ela posou para fotos oficiais ao lado de importantes médicos mineiros, consolidando seu legado na cidade.
Quem foi Marie Curie: a cientista que revolucionou a medicina
Nascida na Polônia em 1867 e naturalizada francesa, Marie Curie foi a primeira mulher a receber o Prêmio Nobel e a única pessoa a vencer em duas áreas científicas distintas: Física, em 1903, e Química, em 1911. Suas descobertas dos elementos polônio e rádio transformaram o estudo da radioatividade.
Ela liderou os primeiros estudos para o tratamento de tumores com isótopos radioativos e fundou centros de pesquisa como o Instituto Curie em Paris e sua contraparte em Varsóvia. Durante a Primeira Guerra Mundial, desenvolveu unidades móveis de radiografia para hospitais de campanha, ampliando o acesso aos exames de raio-X.
O impacto da visita de Marie Curie a Belo Horizonte ultrapassou o simbolismo, influenciando diretamente a estrutura do tratamento oncológico na cidade e no país. O Instituto do Radium permanece na memória da saúde pública como marco pioneiro e inspiração para a evolução dos cuidados contra o câncer.
