Duas Lendas da Música Brasileira
Uma noite marcada pela emoção e reconhecimento. Assim foi a cerimônia realizada no auditório da Reitoria da UFMG, onde Milton Nascimento e Toninho Horta foram agraciados com o título de Doutor Honoris Causa. O momento foi testemunhado por amantes da música e amigos, celebrando o legado deixado por esses ícones da música mineira e brasileira.
Ao lembrar do instante em que recebeu a notícia, Toninho Horta expressou sua surpresa. “Na vida, tudo tem sua hora, mas eu nunca esperei por um momento como esse. Quando soube, pelo Wilson, que receberia o título de Doutor Honoris Causa, eu quase caí duro. ‘Você está brincando comigo?’, perguntei, sem acreditar”, revelou o músico, que descreveu a nomeação como um reconhecimento à sua relação de uma vida inteira com a música.
Criativo e autodidata, Toninho destacou a importância desse reconhecimento, especialmente considerando que muitas pessoas têm estudado sua obra ao longo do tempo. “É um momento único. A ficha realmente ainda não caiu”, comentou, visivelmente emocionado.
A História do Clube da Esquina
A cerimônia, realizada em 22 de dezembro, ficou ainda mais significativa pela presença de Milton Nascimento, uma das figuras centrais do movimento musical Clube da Esquina, que ganhou destaque a partir dos anos 1970. Juntamente com Toninho Horta, ele representa uma forma inovadora de fazer música, reconhecida tanto no Brasil quanto no exterior.
A reitora da UFMG, Sandra Goulart Almeida, enfatizou a importância desses artistas. “Milton Nascimento e Toninho Horta são símbolos de um patrimônio coletivo que é a música de Minas Gerais. Através deles, a UFMG presta homenagem a toda uma história e legado cultural”, afirmou. O reconhecimento que os dois receberam não é apenas uma honra pessoal, mas uma celebração do rico patrimônio musical do estado.
Esta foi a primeira vez que a UFMG conferiu o título de Doutor Honoris Causa a duas personalidades ao mesmo tempo, um marco na história da instituição. “A UFMG vive hoje uma de suas noites mais gloriosas. Esta data será eternamente lembrada”, disse a reitora, que se mostrou fã de ambos os músicos.
Uma Cerimônia Inesquecível
O auditório da Reitoria estava lotado, com quase trezentos lugares ocupados. A cerimônia foi transmitida para o auditório Nobre do CAD 1, onde mais fãs e amigos puderam acompanhar o evento. Ao final dos discursos, alunos e professores da Escola de Música se uniram aos homenageados em uma apresentação musical, celebrando o Clube da Esquina e as composições de Toninho Horta.
Renato Tocantins Sampaio, diretor da Escola de Música, destacou a importância das obras de ambos os artistas. “As interpretações e composições desses mestres são fluídas e espontâneas, mas também carregadas de sofisticação técnica. Essa complexidade é sempre a serviço da emoção”, afirmou, elogiando a musicalidade única que Toninho e Milton trazem.
Toninho não hesitou em mencionar suas influências e raízes musicais, ressaltando a importância de sua formação e das tradições mineiras na sua obra. “A gente teve a sorte de ter o barroco mineiro como parte da nossa cultura. Essa mistura de influências está presente em todas as minhas composições”, comentou ele, refletindo sobre a diversidade musical do estado.
Reconhecimento Global
Em uma fala repleta de emoção, Toninho Horta compartilhou sua teoria de que a música mineira reflete as montanhas do estado, com altos e baixos que se assemelham às suas melodias. “Não fazemos melodias lineares; fazemos algo mais audacioso, que surpreende quem ouve”, destacou, arrancando risos e aplausos do público.
Milton Nascimento, que não pôde comparecer à cerimônia devido a problemas de saúde, foi representado por seu amigo e professor Wilson Lopes. Ele enfatizou o impacto global de Milton e do Clube da Esquina. “Milton é reverenciado em todo o mundo, e sua música é estudada fora do Brasil. É uma honra para Minas Gerais e para a UFMG ter suas contribuições reconhecidas”, afirmou Wilson, que trouxe histórias emocionantes sobre sua amizade com o cantor.
A reitora lembrou ainda do papel de Milton na defesa da democracia brasileira por meio de sua música, reconhecendo sua influência como uma voz importante em momentos críticos da história do país. “A voz de Milton, além de bela, é também engajada. Ele sempre esteve a serviço da liberdade e da democracia”, concluiu.
