A Realidade da Polarização Eleitoral no Brasil
Seis horas e meia da manhã em uma padaria de Heliópolis. Um cliente pede um pingado e um pão na chapa enquanto seu celular toca — é o alarme para o segundo emprego. Esse homem, como muitos brasileiros, não faz ideia do que significa “calcificação do voto”. Ele não se identifica com a esquerda ou a direita, mas percebe que o preço da picanha subiu muito desde que decorou os valores em 2022. Este é o Brasil que decide as eleições, e sua voz permanece quase inaudível.
Para muitos analistas e profissionais de marketing, o país se dividiria em dois blocos sólidos: o vermelho e o verde-amarelo. Contudo, essa visão é simplista e errônea.
A ideia de uma população rigidamente dividida surge de uma análise equivocada que se baseia no barulho das redes sociais — como o Twitter, agora chamado X — e não considera o silêncio que reina nas longas filas dos hospitais públicos. Pesquisas do Instituto Locomotiva revelam que a maior parte da população não se vê inserida nessa guerra ideológica. Mais de metade dos brasileiros não se encaixa na dicotomia lulismo versus bolsonarismo. Eles são apolíticos, não militam, não se engajam em redes sociais e, consequentemente, permanecem invisíveis para quem confunde a digitalização da política com a realidade nacional.
Os Extremos e a Realidade Brasileira
Embora os extremos existam, eles representam apenas uma fração do eleitorado. Os grupos mais radicais, tanto da direita quanto da esquerda, somados, constituem um pequeno segmento da população, mas são eles que dominam o debate público, influenciam a cobertura midiática e alimentam algoritmos nas plataformas digitais. O que se observa é um efeito de megafone, e não um reflexo fiel da sociedade. O Brasil que grita nas redes sociais não é o Brasil que vai às urnas.
A polarização que parece predominar no país é mais emocional do que ideológica. Não se trata apenas de divergências sobre o papel do Estado; é, em grande parte, uma rivalidade semelhante à de torcidas organizadas. O eleitor típico no Brasil é capaz de misturar convicções conservadoras com o apoio a programas sociais como o Bolsa Família, enquanto há eleitores de esquerda que desejam instituições escolares que promovam a religião. O país, portanto, se assemelha a um caleidoscópio, e a insistência em reduzi-lo a um simples embate de cores leva a constantes erros de interpretação.
As Eleições Municipais e o Pragmatismo do Eleitor
As eleições municipais de 2024 trouxeram à tona essa complexidade. Se a polarização fosse realmente tão arraigada, teríamos visto uma repetição da contenda nacional em cada município. Mas isso não ocorreu. Muitos prefeitos que tentaram a reeleição, independentemente de suas ideologias, conseguiram vencer, seja da direita, da esquerda ou do Centrão. Em várias cidades, partidos que deveriam ser adversários se uniram em prol dos mesmos candidatos. O eleitor prioriza quem se preocupa em tapar buracos nas ruas e garantir o funcionamento dos postos de saúde. É o que chamo de Pragmatismo do Buraco: na hora de escolher um gestor, o brasileiro adota uma postura implacavelmente racional.
O que realmente motiva esse eleitor? Questões práticas como o preço da carne, a agonia das filas do SUS e a segurança no caminho da escola. Ideologia, aqui, não conta. O que importa é a geladeira cheia, o medo constante e os boletos a vencer. A maioria das pessoas anseia por um pouco de paz e por soluções para seus problemas cotidianos, em vez de discussões políticas desgastantes.
A Memória Coletiva e os Desafios Futuros
Atualmente, o governo tenta vender uma imagem de prosperidade passada para aqueles que enfrentam dificuldades no presente. A inflação pode ter diminuído em termos percentuais, mas Dona Maria, por exemplo, não se preocupa com o IPCA ao ir ao mercado; ela se lembra que o frango custava metade do preço anterior. Essa memória de preços é mais convincente do que qualquer campanha publicitária. Por outro lado, a direita parece mais focada em suas disputas internas do que em compreender as necessidades do eleitor que vive nas áreas periféricas.
A pergunta crucial que devemos nos fazer em relação a 2026 é: quem terá coragem de sair do ringue e dialogar com a maioria que se encontra à margem dessa disputa? Uma maioria que, exausta e endividada, aguarda alguém que finalmente pergunte o que realmente precisa.
A polarização, portanto, é real, mas sua profundidade é duvidosa. Barulhenta e visível, mas também vulnerável. É uma estrutura de areia; e a próxima onda de realidade tem o potencial de redesenhar completamente esse cenário.
