Iniciativa Revolucionária no Cuidado aos Idosos
Aos 75 anos, Maria Salete Félix, diagnosticada com Parkinson há quase duas décadas, enfrenta diariamente desafios que exigem ajuda para realizar atividades simples, como ir ao banheiro e se alimentar. Sua filha, Joana Darc Félix Lopes de Sena, de 40 anos, é a única responsável pelo cuidado da mãe, mesmo tendo que equilibrar essa responsabilidade com o cuidado da filha de quatro anos e o auxílio ao marido em uma marcenaria.
Com o agravamento da saúde da mãe e uma nova gestação, Joana viu sua rotina transformada com a inclusão de cuidadores do programa municipal de Belo Horizonte. “Foi como uma luz no fim do túnel”, disse Joana, ao comentar sobre a chegada das cuidadoras, que passam a manhã em sua casa, auxiliando com banho, alimentação e medicação, além de oferecer companhia e atividades cognitivas. “Não consigo mais imaginar minha vida sem essas profissionais”, completou.
Lançado em 2011, o programa Maior Cuidado tem como objetivo atender idosos em condição de fragilidade e dependência, que habitam áreas de vulnerabilidade social. A iniciativa foi recentemente integrada ao Plano Nacional de Cuidados Brasil que Cuida, aprovado pelo governo federal no dia 15 de dezembro.
A Importância da Profissão de Cuidador Social
Uma das novidades do plano nacional é a regulamentação da profissão de cuidador social, o que é fundamental para o programa mineiro, que atualmente atende cerca de 720 idosos por mês, contando com uma rede de 210 cuidadores distribuídos por 37 Centros de Referência de Assistência Social (Cras).
De acordo com Ana Cristina da Silva, assistente social e coordenadora do programa, cada cuidador é responsável por até quatro idosos, com um limite de 20 horas de atendimento domiciliar por semana. “O programa não substitui a família, mas a apoia”, enfatiza Ana Cristina, destacando a flexibilidade do atendimento, que varia de acordo com as necessidades dos idosos e a dinâmica familiar. Alguns recebem visitas diariamente, enquanto outros são atendidos três vezes por semana.
O perfil dos atendidos demonstra as mudanças no envelhecimento da população brasileira, com a maioria dos idosos acima de 70 anos e com renda familiar de até três salários mínimos. Muitos dos beneficiários dependem de programas como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) ou Bolsa Família. Além disso, é crescente o número de idosos que vivem sozinhos, apresentando novos desafios para as políticas públicas de assistência. “Observamos uma diminuição no suporte familiar”, aponta Ana Cristina, ressaltando que, em casos de dependência acentuada, o acolhimento institucional pode se tornar necessário.
Integração entre Saúde e Assistência Social
O Maior Cuidado se destaca pela sua abordagem intersetorial, ligando assistência social à saúde pública. As equipes do Cras e das unidades de saúde se reúnem mensalmente para construir um plano de cuidados individualizado. As atividades dos cuidadores incluem desde estímulos cognitivos e resgate da história de vida até cuidados básicos de saúde, como administração de medicamentos e auxílio em banhos.
Para a geriatra Karla Giacomin, uma das idealizadoras do programa, essa abordagem integrada é crucial. “Nem a saúde, nem a assistência social sozinhas são suficientes para atender às necessidades dos idosos. O Maior Cuidado surgiu do entendimento de que os idosos mais vulneráveis enfrentam fragilidades clínicas, funcionais e sociais, geralmente residindo em áreas menos visíveis para os gestores públicos. Os cuidadores são fundamentais para alcançar esses idosos”, afirma.
Resultados Positivos e Sustentabilidade do Programa
Pesquisas independentes demonstram os benefícios do programa. Avaliações realizadas por pesquisadores internacionais revelaram que os idosos atendidos pelo Maior Cuidado apresentam custos de internação hospitalar até 34% menores em comparação a aqueles que não recebem cuidado domiciliar. Além disso, houve um aumento nas consultas eletivas, melhor acesso à reabilitação e uma redução nas internações evitáveis. Dados da prefeitura indicam que apenas 3% dos idosos atendidos precisaram de acolhimento institucional no ano passado.
O investimento anual no programa é de aproximadamente R$ 7 milhões, totalmente custeados pela prefeitura. Especialistas consideram esse custo baixo em comparação a outras alternativas, já que o atendimento a um idoso no programa equivale a cerca de um terço do salário mínimo mensal, enquanto o acolhimento institucional pode ultrapassar três salários mínimos.
“É um caminho sem volta”, conclui Ana Cristina. “Precisamos investir em cuidado domiciliar integrado ou enfrentaremos custos muito mais altos no futuro.” Atualmente, há uma fila de espera de pelo menos 200 idosos já avaliados e prontos para serem incluídos no programa.
Impacto na Vida dos Idosos e Seus Cuidadores
Para Joana, o apoio diário dos cuidadores mudou significativamente a dinâmica de sua casa. “Antes, eu não conseguia me afastar da minha mãe nem para fazer tarefas simples, pois havia o risco de ela cair. Hoje, sei que tem alguém cuidando dela, administrando sua medicação e garantindo que ela esteja bem”, relata, enfatizando o impacto emocional positivo que teve em sua mãe, que se tornou menos ansiosa e voltou a dormir melhor.
Marco Antônio dos Santos, cuidador social do programa, define seu trabalho como uma forma de garantir direitos, afirmando: “Não é caridade, é política pública”. Segundo ele, o maior desafio é entrar em lares onde existem conflitos e vulnerabilidades, mas com seu trabalho, muitas vezes é possível ensinar familiares a cuidar de seus entes.
Após 15 anos de existência e atravessando cinco administrações municipais de diferentes orientações políticas, o Maior Cuidado tem influenciado outras cidades, como Salvador, Contagem e municípios do Ceará, sendo reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma boa prática de cuidado integrado no Hemisfério Sul. Karla Giacomin ressalta que o Brasil possui políticas para demência, cuidados paliativos e cuidados de forma geral, mas ainda falta uma integração dessas políticas. “O Maior Cuidado pode se tornar um pilar para a política nacional de cuidados, com cofinanciamento federal. O envelhecimento é um tema que precisa ser urgentemente abordado”, finaliza.
