Desafios Enfrentados pelo Cesec de Contagem
A queda drástica no número de matrículas do Centro Estadual de Educação Continuada (Cesec) Clemente de Faria, localizado em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, ilustra um preocupante processo de exclusão educativa. Em 2024, a escola contava com 1.602 alunos; no ano seguinte, esse número despencou para 814, e, em 2026, apenas 352 estudantes permanecem matriculados.
As razões por trás dessa significativa redução e suas repercussões na educação foram debatidas durante uma visita da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia ao Cesec, realizada na noite de segunda-feira (2/3/26). Durante o encontro, ficou claro, tanto para a comunidade escolar quanto para a deputada Beatriz Cerqueira (PT), que o principal fator responsável por essa drástica diminuição foi a eliminação do ensino fundamental na instituição.
Alunos e funcionários da escola concordaram que a implementação do ensino a distância (EaD) em 80% das aulas do ensino médio também contribuiu para a queda no número de matrículas. Para exemplificar, antes da adoção do EaD, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) registrava 451 alunos em 2024, mas esse número caiu para 288 após a mudança. Em 2026, a situação se agravou, com apenas 26 alunos matriculados no ensino fundamental até o atual momento, podendo chegar a cerca de 40, conforme afirmam os servidores.
A Visita da Deputada Beatriz Cerqueira
A deputada Beatriz Cerqueira, representante da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), recordou que a comissão havia visitado o Cesec em 2024 e que, desde então, as condições pioraram. Ela ressaltou que a última medida do Governo de Minas foi a publicação, em dezembro do ano anterior, de uma portaria que extinguiu o ensino fundamental em todas as unidades do estado, que totalizam cerca de cem Cesecs.
“Estamos falando de aproximadamente 18 mil estudantes que ficarão sem atendimento; o governo elimina o ensino fundamental e não cria novas vagas em escolas estaduais, o que resulta na exclusão de vocês”, afirmou, dirigindo-se aos alunos presentes.
Oportunidades Oferecidas pelo Cesec
Durante a visita, muitos alunos e funcionários do Cesec Clemente de Faria compartilharam suas experiências, enfatizando as oportunidades únicas que a escola oferece e lamentando a possível extinção do ensino fundamental. O especialista em educação básica, Yuri Maia, destacou que, de acordo com a portaria da Secretaria de Estado de Educação, os alunos atualmente matriculados no ensino fundamental terão um prazo de apenas 90 dias para concluir seus estudos. Se não conseguirem finalizar até maio deste ano, serão obrigados a buscar outras instituições de ensino.
Os depoimentos de alunos foram impactantes. Muitos valorizaram a flexibilidade proporcionada pelo Cesec, que possibilitou a continuidade de seus estudos, algo que não seria viável em outras escolas. Entre os relatos, destacam-se casos de pessoas que, por diversos motivos, precisaram interromper sua educação e que encontraram no Cesec um espaço seguro para recomeçar.
Débora, por exemplo, interrompeu os estudos aos 15 anos para ajudar a família. Ao se mudar para Contagem, já mais madura e com um filho com problemas de saúde, ela viu no modelo de ensino do Cesec uma chance de continuar sua formação. “Se o ensino fundamental for cortado, isso afetará não só a mim, mas muitos outros”, lamentou.
Bruno, um aluno que sofreu um acidente de trabalho, também expressou sua frustração: “O fim do ensino fundamental é um roubo do meu direito de recomeçar. Se não puder informar ao INSS que estou estudando, não conseguirei minha documentação”, desabafou.
Hélio, que trabalhou nas Massas Vilma, destacou a flexibilidade que o Cesec oferece, possibilitando conciliar trabalho e estudos, o que o ajudou a concluir o fundamental e, atualmente, cursar o ensino médio. Já Dalva, que passou em concurso da MGS, ressaltou que precisou completar o ensino fundamental para assumir a vaga e conseguiu essa formação por meio do supletivo oferecido pelo Cesec.
Nayara, mãe de seis filhos, também compartilhou sua história de superação. Após retornar aos estudos, ela está no ensino médio e tem como meta chegar à faculdade. Ela critica a decisão do governo: “Por que mexer no que está funcionando? O governo deveria aprimorar o Cesec, não acabar com o ensino fundamental”, destacou.
A Luta pela Manutenção do Ensino Fundamental
Após ouvir as falas, Beatriz Cerqueira informou que fez uma representação contra o governo na Defensoria Pública e no Tribunal de Contas do Estado, afirmando que “Minas Gerais possui metas a cumprir na EJA; e esta visita é para reforçar meu apoio ao Cesec e a necessidade de manter o ensino fundamental”. Ela lembrou que os Cesecs atendem a demandas específicas, como mulheres vítimas de violência, pessoas em reabilitação, idosos e comunidades quilombolas, que não encontram suporte em outras instituições.
“Sem o Cesec, muitos não conseguirão continuar seus estudos, pois as escolas vizinhas não oferecem essa modalidade de ensino”, concluiu. Desde 2024, a questão da manutenção dos Cesecs tem sido debatida na ALMG. Durante audiências e visitas, a comunidade escolar defendeu a permanência do modelo presencial de educação. Na audiência mais recente sobre o tema, foi cobrada do secretário de Estado de Educação, Rossiele Soares da Silva, a revogação da resolução que extinguiu o ensino fundamental nos Cesecs e a implementação do EaD.
