O Legado do BH Canta e Dança
Por uma década, entre 1986 e 1997, a Praça da Estação em Belo Horizonte foi palco do projeto BH Canta e Dança, que reunia anualmente entre 20 mil e 30 mil jovens. Apesar de sua relevância para a consolidação do hip-hop na cidade, há uma escassez de registros sobre o evento, o que despertou o interesse do rapper e pesquisador Roger Deff. Para preencher essa lacuna histórica, ele escreveu o livro “Negritude, hip-hop e território: BH Canta e Dança”, publicado pela Editora Dialética, com lançamento programado para esta quinta-feira, 19 de março, na sede do coletivo Família de Rua.
Durante sua pesquisa, Deff encontrou apenas um capítulo da tese “A música entra em cena: o rap e o funk na socialização da juventude em Belo Horizonte”, escrito por Juarez Dayrell, que faz referência ao evento. Além disso, a Belotur, uma das apoiadoras do festival, não possuía arquivos sobre essa importante manifestação cultural. “Como um evento que acontece por quase 10 anos é totalmente esquecido? Isso mostra que construir memória também é poder”, destaca o autor.
A Trilha da Pesquisa e a Identidade do Rap Mineiro
O livro de Roger Deff é resultado de sua dissertação de mestrado em artes na Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg). Inicialmente, o foco da pesquisa estava na identidade do rap mineiro. Contudo, ao realizar entrevistas com artistas e frequentadores, Deff percebeu a centralidade do BH Canta e Dança na cultura hip-hop local.
Idealizado por MC Pelé, um ícone do rap belo-horizontino e autor da famosa canção “Namorar pelado”, o BH Canta e Dança se tornou um ponto de encontro de jovens da periferia, especialmente aqueles ligados aos bailes dos anos 1990. O evento desempenhou um papel fundamental na formação e consolidação do funk e do rap na capital mineira, num contexto onde o hip-hop começava a se firmar no Brasil, desde sua chegada em 1983.
Impacto Cultural e Memória Social
Além de servir como um precursor para o projeto Duelo de MCs, que começou em 2007 e trouxe visibilidade ao rap belo-horizontino, o BH Canta e Dança foi um catalisador para artistas que mais tarde se destacaram nacionalmente, como Djonga e FBC. O evento, que começou como uma ação voltada à arrecadação de brinquedos, diversificou suas edições, criando temáticas que incluíam homenagens a figuras como Nelson Mandela, após sua libertação em 1990, além de ações sociais contra as drogas e a violência.
“Muitos dizem que não era um evento puramente hip-hop, já que o funk estava presente. No entanto, a ocupação do espaço público e a mobilização social, com campanhas de respeito e valorização, são, em essência, o que o hip-hop representa”, argumenta Deff.
A Importância das Vozes e das Histórias
Entre os entrevistados por Deff estão figuras importantes do cenário musical, como DJ A Coisa, DJ Joseph, e MC Ellu, a qual é considerada por ele a primeira mulher a cantar funk em Belo Horizonte. Embora MC Cacau tenha sido lançada em 1994 como um dos primeiros nomes do gênero, Ellu já gravava em 1992, com destaque para a faixa “Tira a mão de mim”, do álbum “Fábrica de ritmos”.
A pesquisa é marcada pela escassez de documentação e pela falta de registros formais. Deff enfatiza a importância de preservar essas histórias. “As pessoas priorizavam a experiência ao invés de registrar o que acontecia. Se não fizermos esse registro agora, essas narrativas se perderão”, explica.
Detalhes do Lançamento
Com a dissertação concluída em 2021, a pesquisa de Deff continuou até 2025. “Não posso deixar isso restrito a mim ou à academia. O único registro sobre a história do hip-hop em BH é este livro”, conclui. “Negritude, hip-hop e território: BH Canta e Dança” possui 156 páginas e será vendido a R$ 89,90. O lançamento ocorre nesta quinta-feira, 19 de março, às 19h30, na sede do coletivo Família de Rua, localizada na Rua Aarão Reis, 554, Centro, com entrada gratuita.
