As Dinastias e Suas Estratégias na Corrida Eleitoral em Minas Gerais
A eleição de 2026 em Minas Gerais começa a tomar forma bem antes do registro das candidaturas. Nos bastidores, os partidos se movimentam, ampliando palanques e fortalecendo suas bases. Um fator comum a diferentes ideologias e regiões do estado é a influência persistente das famílias. A força dos sobrenomes não se resume apenas a coincidências; é uma forma estruturada de poder que molda a política mineira.
A corrida para o governo estadual, para o Senado e as vagas na Assembleia Legislativa promete ser impactada pela presença de dinastias tradicionais, grupos regionais consolidados e novas lideranças em ascensão. Um dos núcleos de maior organização se concentra na capital, Belo Horizonte, sob a liderança de Marcelo Aro (PP), secretário de Governo de Minas, que busca viabilizar sua candidatura ao Senado. O que se denomina “família Aro” inclui a vereadora professora Marli (PP) e o deputado estadual Zé Guilherme (PP), pais de Marcelo, além de aliados como a deputada federal Nely Aquino (Podemos) e o presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte, Juliano Lopes (Podemos). Esse grupo, articulado e influente, conta com a conexão direta com prefeitos em diversas regiões.
O rótulo “família Aro” surgiu como uma tentativa de deslegitimar a relação política entre os vereadores, mas acabou se transformando em um símbolo de identidade. Em uma entrevista ao Estado de Minas, Aro comentou sobre como o termo foi reconhecido pelo próprio grupo, que passou a adotá-lo de forma positiva. “Virou um grupo político sólido, que caminha junto e tem compromisso com Belo Horizonte”, afirmou.
No interior do estado, a política familiar também se revela essencial. Em Alto Paranaíba, por exemplo, o prefeito de Patos de Minas, Luiz Eduardo Falcão (Republicanos), e a deputada estadual Ludmila Falcão (PP) estão expandindo seu grupo, que ganhou notoriedade a partir de uma base municipalista. Falcão, respeitado por líderes regionais, foi convidado pelo senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) para compor a chapa majoritária ao governo. Lud, por sua vez, construiu seu mandato focando em saúde e assistência social e se destacou após enfrentar divergências com o governo estadual, que será ocupado pelo vice-governador Mateus Simões a partir do próximo dia 22.
Outro grupo em ascensão é o clã Azevedo. Cleitinho Azevedo é visto como um forte candidato ao governo e aparece liderando os levantamentos de intenção de voto. Seu irmão, Gleidson Azevedo (Novo), prefeito de Divinópolis, é uma opção para o Senado ou a Câmara dos Deputados, enquanto o deputado estadual Eduardo Azevedo (PL) busca a reeleição. Em entrevista, Cleitinho comentou que o termo “clã” se popularizou entre os integrantes como uma forma de identificação.
Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a família Pinheiro também é uma presença marcante, com o deputado federal Pinheirinho, presidente do PP em Minas, e a deputada estadual Ione Pinheiro, que visam a reeleição, mantendo a tradição política iniciada por seus antecessores. Outra família influente é a Teixeira Dias, com o deputado federal Marcelo Álvaro Antônio (PL) e a deputada estadual Amanda Teixeira Dias (PL), que atuam em um reduto eleitoral no Barreiro, construído por meio da liderança comunitária de Teixeira Dias.
No Triângulo Mineiro, a presença política das famílias continua a ser determinante, como no caso do prefeito Odelmo Leão, que mantém seu papel após décadas de serviço público, enquanto a deputada estadual Ana Paula Leão (PP) representa a continuidade do seu clã. Na Zona da Mata, a família Varella combina a atuação parlamentar com projetos nas áreas de saúde e educação, com Lael e Misael Varella exercendo influência na região.
No Leste de Minas, a família Coelho Diniz destaca-se pela união do poder econômico com a influência política. Os irmãos Diniz, com uma rede supermercadista consolidada, têm seu espaço político representado pelo deputado Hercílio Coelho Diniz Filho (MDB), além de Alex Diniz, que ocupa a suplência ao Senado.
Enquanto isso, a família Biondini, composta pelo deputado federal Eros Biondini (PL) e a deputada estadual Chiara Biondini (PL), atua em pautas conservadoras e mantém forte ligação com o eleitorado religioso. No campo progressista, a família Patrus continua a ser uma referência histórica, com Patrus Ananias (PT) focando em políticas sociais e Pedro Patrus (PT) trazendo uma nova geração ao Legislativo.
O cientista político Carlos Ranulfo, da Universidade Federal de Minas Gerais, aponta para a coexistência de antigas dinastias e novos clãs, que rapidamente se estruturam em bases regionais. “Famílias políticas funcionam como marcas eleitorais, oferecendo reconhecimento e estrutura de campanha, algo que os partidos nem sempre conseguem garantir”, explica Ranulfo. À medida que o cenário eleitoral se desenrola, a corrida em Minas Gerais será moldada tanto por propostas de governo quanto pela habilidade dessas redes familiares em mobilizar apoios e construir alianças.
