A Conexão Entre Duas Paisagens
Thatiane Mendes Duque, uma artista visual de 43 anos, nasceu em Belém do Pará e cresceu cercada pela umidade amazônica. Essa vivência moldou sua percepção sensorial do mundo, onde a natureza é uma presença constante e não uma paisagem distante. Para ela, a natureza se entrelaça ao cotidiano, manifestando-se nos alimentos, nas plantas, nos corpos e até no clima. Assim, Thatiane descreve suas raízes na região Norte do Brasil. Atualmente, ela é professora e pesquisadora na Escola de Design da UEMG, mas sua jornada começou aos 13 anos, quando se mudou para Minas Gerais, ampliando suas experiências e influências.
No município de Patos de Minas, na região do Alto Paranaíba, suas lembranças de barrancos de argila rosa e a tradição têxtil da família moldaram sua relação com a matéria. Filha de uma costureira e neta de uma produtora e fiandeira de algodão, Thatiane mergulhou na pesquisa de alternativas ecológicas para o têxtil tradicional. Desde 2015, sua inovação se materializa nas biopeles, superfícies orgânicas criadas a partir de plantas do Cerrado, amidos, gelificantes naturais, algas e minerais em pó, que passam por processos como cozimento, fervura, sedimentação, secagem e mineralização. Essas biopeles imitam o couro e biopolímeros, evitando a exploração animal e o uso de produtos petroquímicos.
Uma Exposição Que Fala à Intimidade Humana
“Minha pesquisa é um encontro entre duas paisagens: a umidade, a vegetação da Amazônia e a materialidade mineral do Cerrado em Minas Gerais”, explica a artista. Essa fusão se reflete em suas obras, onde ela mistura plantas do Cerrado, algas, minerais em pó, tecidos e amidos para criar superfícies que evocam peles, membranas ou paisagens. Essa abordagem única proporciona uma nova perspectiva sobre a relação entre matéria e natureza.
Na próxima sexta-feira, 13 de outubro, Thatiane, agora residente em Belo Horizonte, retorna ao Triângulo Mineiro para a abertura da exposição “Pele de Bicho: intimidade entre estranhos”, com curadoria de Bruno Duque, na Oficina Cultural de Uberlândia. Este espaço é significativo para a artista, já que foi onde ela se graduou em Artes Visuais pela UFU e deu seus primeiros passos no universo da arte contemporânea. A mostra contará com trabalhos inéditos, incluindo uma colaboração têxtil com bordadeiras da Serra da Moeda, que incorpora tecidos tingidos com plantas locais, bordados e fragmentos.
A Intimidade com Formas de Vida Invisíveis
O título da exposição reflete uma ideia profunda: coexistimos constantemente com formas de vida que são invisíveis, como bactérias, fungos e microorganismos. “Essas entidades fazem parte da nossa vida diária, mesmo que não estejamos cientes disso. Existe uma intimidade duradoura entre nossos corpos e essas outras formas de vida”, ressalta Thatiane, destacando a importância de reconhecer essa conexão. Os visitantes poderão explorar essa relação até o dia 8 de abril, uma oportunidade imperdível para apreciar a arte e a reflexão sobre a ecologia e a coexistência.
