Um Presidente em Dificuldades: O Cenário de 2026
Um presidente dos Estados Unidos que enfrenta uma crescente impopularidade e é cercado por escândalos, incluindo acusações de natureza sexual, se encontra em um momento crucial, em um ano eleitoral onde as chances de derrotas se tornam palpáveis. Com uma série de problemas que parecem impossíveis de solucionar, ele tem apenas duas opções: lidar com os reais dilemas do país ou criar um conflito externo significativo o suficiente para ofuscar as notícias, redirecionar o debate público e reafirmar sua posição como comandante-chefe.
A situação descrita acima pode soar familiar, especialmente neste início turbulento de 2026. Contudo, não se trata de uma nova narrativa da atualidade, mas sim do enredo da sátira política “Mera Coincidência”, lançada em 1997, que ilustra como líderes impopulares frequentemente se voltam para crises externas para manipular a opinião pública e recuperar o controle da narrativa.
A Operação na Venezuela: Um Jogo Político
Quase três décadas depois, a semelhança com os tempos atuais vai além do mero entretenimento. Ao ordenar uma operação militar contra a Venezuela e anunciar a captura de Nicolás Maduro, Donald Trump não está buscando resolver uma questão regional específica, restaurar a democracia no país ou combater o narcotráfico. Para ele, esses resultados são meros efeitos colaterais, irrelevantes do ponto de vista político em relação ao objetivo principal.
A guerra, nesse contexto, não é apenas um meio para alcançar um fim, mas sim um instrumento político em si. Ela se torna funcional ao atender a um problema imediato de poder. Quando 2026 começa, Trump enfrenta um cenário de baixa popularidade, uma base eleitoral que se mostra menos mobilizada e pouquíssimo espaço para uma recuperação rápida via economia. Estímulos financeiros estão acompanhados de riscos inflacionários, e as reformas estruturais não têm gerado resultados no ritmo que o calendário político exige. A guerra, portanto, aparece como um atalho: não resolve os problemas reais, mas reorganiza a agenda pública.
O Cálculo Político por Trás da Guerra
Esse raciocínio não é tão abstrato quanto pode parecer. Em um encontro recente com representantes do Partido Republicano, Trump deixou claro que, se não conseguir vencer as eleições de meio de mandato, poderá enfrentar um novo processo de impeachment. Assim, a ação militar na Venezuela se torna não apenas um símbolo de força, mas também uma ferramenta de coesão para a política interna.
Ao divulgar o ataque para sua base de apoio no Congresso e descrevê-lo como “brilhante”, recebendo aplausos calorosos, Trump sinaliza claramente para quem essa guerra é direcionada. O objetivo não é convencer o eleitor médio, que está preocupado com o aumento dos preços, mas sim mobilizar seu núcleo político mais fiel, aquele que garante sua governabilidade, pressiona o Congresso e o protege de possíveis ameaças institucionais.
Instrumentalização da Política: O Método Trump
É aqui que o método de Trump se revela de maneira clara. Em vez de responder a problemas, ele os antecipa e os transforma em oportunidades. A estabilidade não é seu objetivo; ele busca reconfigurar o ambiente ao seu redor. A mensagem para o eleitor norte-americano é clara: “Eu ajo. Eu entrego. Eu cumpro o que prometi.” Para muitos, essa percepção pesa mais do que discussões jurídicas, humanitárias ou diplomáticas.
Se a Venezuela se tornará uma democracia não é uma preocupação no cálculo político de Trump. Se o combate ao narcotráfico terá resultados efetivos, também não. As reações da comunidade internacional, as violações de soberania e as disputas por recursos são vistas como custos colaterais, difusos e de longo prazo, que são externalizados para o sistema internacional. O benefício político, por outro lado, é imediato, doméstico e facilmente mensurável em termos de controle da narrativa.
A Guerra como Espetáculo de Reputação
Quando a força militar se torna uma ferramenta para a reputação política, as guerras deixam de exigir objetivos estratégicos claros ou planos de saída. Basta que a narrativa de vitória se mantenha viva o suficiente para atravessar um ciclo eleitoral. É nesse ponto que a analogia com “Mera Coincidência” se torna ainda mais pertinente. Tal como no filme, o conflito não precisa de uma resolução; ele precisa apenas ser sentido. Quando a política se transforma em espetáculo, a realidade deixa de ser o critério central e se torna apenas um detalhe técnico.
Portanto, não se deve enganar. Esta não é uma guerra por valores, segurança ou justiça. É uma guerra por reputação, poder e sobrevivência política.
