O Papel Estratégico do Turismo na Economia Mineira
Os dados sobre o turismo em Minas Gerais apresentam um cenário de divergência. A Federação do Comércio de Minas Gerais (Fecomércio-MG) aponta uma queda de 3,9% na atividade turística entre janeiro e novembro de 2025, enquanto a Secretaria de Cultura e Turismo do Estado (Secult) utiliza outra metodologia e observa um crescimento. Essa diferença pode ser atribuída a variáveis como sazonalidade, perfil de consumo e gastos médios. Segundo a Secult, essas oscilações não necessariamente indicam uma queda ou aumento real no número de turistas.
“O turismo ocupa uma posição estratégica na economia mineira. Trata-se de uma atividade essencial, que se destaca em vez de ser apenas acessória”, destaca Bárbara Botega, secretária da Secult. O setor movimenta diversas áreas, incluindo hospedagem, alimentação, transporte, comércio e cultura, gerando cerca de 452 mil empregos formais no estado e registrando um crescimento de 16 mil novas vagas em 2024, representando um aumento de 3,6% em relação ao ano anterior.
Investimentos e Apoio ao Setor Turístico
Botega explica que um dos mecanismos para apoiar o turismo é o repasse do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) aos municípios, que varia conforme a organização e o desempenho do setor. Em 2025, esses repasses totalizaram R$ 87,4 milhões, beneficiando 605 municípios.
Entre os destinos mais procurados estão as cidades históricas como Ouro Preto, Mariana e São João del Rei, reconhecidas por seu patrimônio barroco e pelo turismo religioso, além do Circuito das Águas em São Lourenço e Caxambu. Um exemplo significativo de investimento é o novo hotel do grupo português Vila Galé, inaugurado em Ouro Preto em maio do ano passado, que conta com 311 quartos e demanda de R$ 180 milhões. O grupo também anunciou um resort em Brumadinho, próximo ao Instituto Inhotim, com previsão de entrega em 2027, que exigirá R$ 150 milhões em investimentos.
Instituto Inhotim: Um Destino Turístico em Ascensão
Paula Azevedo, presidente do Instituto Inhotim, ressalta que Inhotim não é apenas um museu, mas um verdadeiro destino turístico. “É preciso se planejar para visitá-lo. Isso, por sua vez, estimula o crescimento da rede de hospitalidade na região”, afirma. No ano passado, Inhotim recebeu mais de 365 mil visitantes e, para 2026, a expectativa é aumentar esse número com novas inaugurações e uma exposição especial em celebração aos 20 anos do museu.
Novas Iniciativas e Expansão da Rede Hoteleira
Outro destaque é a inauguração, em setembro passado, do primeiro hotel da bandeira Tribe, do grupo Accor, em Belo Horizonte, voltado para um público mais jovem e descolado. O grupo planeja abrir mais oito hotéis em Minas até 2029, incluindo o ibis Styles Araxá e outras unidades em cidades do interior, como Pouso Alegre e Uberaba. Os investimentos nesses empreendimentos somam R$ 227 milhões.
“Essas cidades foram escolhidas por sua demanda crescente por hospedagem e boa conectividade”, explica Rômulo Silva, diretor de desenvolvimento de franquias da Accor Brasil. Além disso, a Accor está avaliando oportunidades em outras cidades mineiras, como Governador Valadares e Itabira, destacando Minas Gerais como um mercado estratégico devido à sua posição como a terceira maior economia do país.
Roteiros Turísticos e a Regionalização do Setor
Com 696 municípios no Mapa do Turismo Brasileiro, o governo estadual tem investido na qualificação do setor e na criação de roteiros turísticos. Desde 2023, o Projeto Novas Rotas já estruturou 14 roteiros que integram cultura, arte, natureza, gastronomia e turismo rural, em parceria com o Sebrae-MG. Exemplos incluem a Rota das Artes, a Rota Queijo, Café e Cachoeira e o Destino Peruaçu, este último em destaque por sua importância ecológica, já reconhecida pela UNESCO.
Desafios e Sustentabilidade no Turismo
Alexandre Santos, presidente da Associação Mineira de Hotéis de Lazer (Amihla), acredita que novas rotas criarão oportunidades significativas para o setor. Em 2026, a previsão é que os feriados prolongados impulsionem as reservas nos hotéis de lazer em até 6% em relação ao ano anterior. “O interesse pelo turismo de contemplação, como observado no Carnaval, deve se repetir”, afirma Santos.
Marcos Kunupp, professor na Universidade Federal de Ouro Preto, alerta para a necessidade de explorar áreas como o Vale do Jequitinhonha e a serra da Canastra de maneira sustentável. “É essencial que o desenvolvimento do turismo esteja alinhado com planejamento urbano e participação social, evitando que o setor desvirtue a realidade local”, conclui.
