A Insistência em um Estado Mínimo
Analistas políticos em Minas Gerais enxergam Matheus Simões (PSD) como um prolongamento da gestão de Romeu Zema (Novo), que renunciou para concorrer às eleições presidenciais. Segundo esses especialistas, Simões não só dá continuidade ao projeto de desmonte do Estado, como também reforça um modelo de governança autoritária. Essa característica se manifesta em um crescente desgaste com os servidores públicos e um aumento considerável na dívida do estado com a União. Além disso, a gestão de Zema, da qual Simões fez parte, tem sido marcada por concessões estratégicas à iniciativa privada.
Antes de ocupar o cargo de governador, Simões foi vice de Zema entre 2022 e 2026, e sua trajetória se entrelaça com a administração anterior, onde atuou como secretário-geral no primeiro mandato de Zema (2020-2022). Nesse período, ele foi uma peça-chave na implementação de medidas controversas como a Reforma Administrativa e a privatização de empresas estatais.
Um Novo Capítulo de Autoritarismo
Na visão do deputado federal Rogério Correia (PT-MG), Simões representa a continuidade de um governo que privilegia a privatização em detrimento do fortalecimento do Estado. “Simões é a continuidade de um governo centrado no ‘não Estado’, ou seja, na privatização absoluta, e ao mesmo tempo em relações autoritárias com movimentos sociais”, destaca. Para Correia, as medidas anunciadas por Simões são as mais extremas dentro desse projeto neoliberal.
O professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), José Luiz Quadros, concorda e vai além: segundo ele, a administração de Simões não deve ser considerada um projeto coerente, mas sim parte de um movimento global alinhado à ascensão da extrema direita, que busca o desmonte do Estado em diversas esferas.
Privatizações em Debate
O papel de Simões na articulação da privatização de empresas públicas é uma das críticas mais contundentes. Ele foi responsável por levar à Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) a proposta de emenda à Constituição que elimina a necessidade de um referendo popular para desestatizações. A proposta afetaria instituições essenciais, como a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) e a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa).
Simões também foi o autor do projeto que permitiu a privatização da Copasa, o qual foi aprovado sob forte pressão do governo do estado. “Além da privatização da Copasa, Simões já declarou interesse em privatizar a Cemig e está atuando para privatizar a educação, com o leilão de escolas”, detalha Correia.
Recentemente, o governo de Minas anunciou a venda da gestão de 95 escolas públicas a um consórcio privado, com a empresa IG4 BTG Pactual Health Infra assumindo a responsabilidade por sua administração nos próximos 25 anos. Essa decisão gerou preocupações entre trabalhadores da educação e comunidades escolares, que temem pela qualidade do ensino.
Críticas à Gestão e Seus Impactos
Denise Romano, coordenadora do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (SindUTE/MG), critica abertamente o foco da administração na elite, ressaltando a falta de compromisso com políticas públicas que beneficiem a maioria da população. “Os ataques ao setor educacional e a desvalorização dos trabalhadores são evidentes”, aponta.
Em relação às condições salariais dos servidores, Simões enfrenta desafios significativos. Profissionais de diversas áreas, incluindo saúde e educação, relatam defasagens salariais que chegam a 50% em alguns casos, como no de policiais civis e militares. Apesar disso, Simões, em uma das suas primeiras ações, ofereceu um reajuste de apenas 5,4%, uma proposta bastante criticada que acabou sendo aprovada pela ALMG.
Um Passado Polêmico e o Caminho à Frente
A trajetória política de Simões é marcada por polêmicas, como sua defesa do projeto Escola Sem Partido, que muitos especialistas consideram um retrocesso na educação. Esse episódio gerou um pedido de cassação por quebra de decoro parlamentar após um incidente em que Simões agrediu um colega durante uma discussão sobre o tema.
Atualmente, ele enfrenta um cenário complicado não apenas em relação às privatizações, mas também com a insatisfação generalizada de servidores públicos. Beatriz Cerqueira (PT), deputada estadual, critica a nova administração, afirmando que apesar da mudança de nome, o grupo político que permanece no poder não atendeu às promessas feitas.
Expectativas Futuras
Para Rogério Correia, o novo governador já deixa um legado negativo, e sua reeleição em outubro parece improvável. “Precisamos de um governo que retome políticas públicas que beneficiem a educação e a saúde, e que corresponda aos anseios da população”, conclui. José Luiz Quadros reafirma que “um governo que não garante direitos constitucionais não deve receber o voto popular”, ressaltando a importância de uma gestão que busque a inclusão e o bem-estar social em Minas Gerais.
