Mudanças no Perfil Habitacional do Brasil
Os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no último dia 17, revelam uma significativa transformação no cenário habitacional do Brasil. Em 2024, 23,8% dos domicílios brasileiros, ou 18,9 milhões de moradias, eram alugados. Este percentual representa um crescimento em relação a 2016, quando apenas 18,4% (12,3 milhões) dos lares eram ocupados por locatários. Assim, ao longo de nove anos, o número de imóveis alugados aumentou em impressionantes 54,1%.
Em contrapartida, a proporção de moradias já quitadas caiu de 66,8% para 60,2%. A tendência de diminuição das casas próprias é visível na série histórica, evidenciando uma mudança significativa nas preferências habitacionais dos brasileiros. Os imóveis que ainda estão sendo pagos se mantiveram relativamente estáveis entre 2016 e 2025, com um leve aumento de 6,2% para 6,8%. No último ano da série, esse grupo registrou um crescimento de 15,9%, sugerindo uma crescente dependência do financiamento imobiliário.
A taxa básica de juros (Selic) elevada, em 15% ao ano em meados de 2025, contribuiu para encarecer o crédito imobiliário, dificultando o acesso à casa própria para muitas famílias. Este cenário levou muitos brasileiros a postergar a aquisição de imóveis ou a enfrentar desafios para arcar com seus financiamentos, o que pode explicar o aumento dos aluguéis e a diminuição das moradias quitadas.
O Aumento do Aluguel nas Capitais
William Kratochwill, analista da PNAD Contínua, destaca que os dados apontam uma mudança significativa na forma como os brasileiros acessam a habitação. Embora a renda tenha crescido de maneira consistente nos últimos anos, esse avanço não foi suficiente para garantir que muitas famílias conseguissem se inserir no mercado formal de habitação. “Observamos uma evolução nos rendimentos, mas talvez não seja o bastante para permitir que as pessoas tenham acesso a seus próprios lares”, afirma Kratochwill. Como resultado, um número crescente de famílias acaba optando por alugar.
O aumento dos aluguéis é evidente, especialmente nas capitais brasileiras, embora com variações entre as cidades. Em 2025, algumas capitais já apresentavam mais de um terço dos domicílios ocupados por locação. Palmas lidera a lista, com 47,3% das moradias alugadas, seguida por Florianópolis (36%), Goiânia (35,3%) e Brasília (34,5%).
As grandes metrópoles também registraram um crescimento no número de imóveis alugados ao longo da última década. Em São Paulo, por exemplo, a proporção de domicílios alugados saltou de 26,4% em 2016 para 29,9% em 2025. No Rio de Janeiro, a taxa subiu de 20,3% para 28,2%, e em Belo Horizonte, o aumento foi ainda mais significativo, passando de 19,5% para 29,6%.
A região Norte também apresenta essa tendência: em Belém, a taxa de domicílios alugados quase dobrou no mesmo período, passando de 11,1% para 21,2%. Segundo Kratochwill, essa mudança está associada a uma concentração do patrimônio imobiliário, onde muitos novos apartamentos são destinados ao mercado de locação, em vez de serem ocupados pelos proprietários.
Verticalização e Mudanças no Perfil das Cidades
Os dados do IBGE indicam que o aumento da construção de apartamentos tem sido um dos principais motores da transformação do perfil habitacional nas cidades brasileiras, especialmente nas capitais. Em Porto Alegre, por exemplo, a maioria dos domicílios (52,1%) já é composta por apartamentos. Vitória é outra capital que se aproxima desse cenário, com 49,9% de suas moradias sendo apartamentos. Já em Belo Horizonte, esse número é de 45,1%.
Capitais como João Pessoa e Aracaju também mostraram um crescimento rápido na proporção de apartamentos, passando de 30% para 45,9% e de 26,8% para 39,6%, respectivamente. Em Brasília, a participação subiu de 26,7% para 38,5%. Mesmo em cidades onde as casas ainda predominam, como Manaus e Fortaleza, a presença de apartamentos tem aumentado.
Essas transformações refletem a maneira como as cidades estão se expandindo, possibilitando que mais moradias sejam concentradas em áreas urbanas limitadas. “Com a verticalização, é possível acomodar 20 ou 30 famílias em um espaço onde antes apenas cabiam duas casas”, observa Kratochwill. Essa realidade se alinha às tendências do mercado imobiliário, onde construções verticais oferecem maior rentabilidade para incorporadoras, reforçando a expansão desse modelo nas áreas urbanas.
