Desafios da Aprendizagem no Centro dos Planos de Governo
Os candidatos à Presidência da República reconhecem que a aprendizagem é um dos principais desafios da educação no Brasil. Essa percepção aparece com “muita força” nos planos de governo para a área, segundo especialistas consultados pelo Terra. No entanto, apesar do avanço no diagnóstico, as propostas para enfrentar essas barreiras permanecem frágeis e pouco estruturadas.
Ivan Gontijo, gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, destaca que a convergência em torno da aprendizagem representa um avanço em relação a eleições anteriores, quando temas como discussões de gênero e ideologia dos professores ganhavam mais destaque. “Os planos trazem um diagnóstico importante, mas os caminhos propostos ainda são insuficientes”, avalia.
Propostas Prioritárias e Pontos de Divergência
Entre as estratégias mais comuns nos planos estão o fortalecimento da alfabetização, a ampliação das escolas em tempo integral e o foco na educação profissional e tecnológica. Contudo, a adoção de escolas cívico-militares é um ponto controverso. Cláudia Costin, especialista em políticas educacionais e ex-diretora global de Educação do Banco Mundial, critica essa aposta. “Disciplinar a escola não se resolve com a presença de policiais militares, mas com um ensino significativo, alinhado ao século 21 e professores valorizados e bem preparados”, afirma.
O pesquisador Mozart Neves Ramos, da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto (SP), corrobora essa visão e ressalta que o modelo cívico-militar não corresponde à realidade do país nem aos padrões dos países desenvolvidos. “Embora possa ter tido algum sucesso em contextos específicos, não justifica o custo e não é um modelo presente em nações desenvolvidas”, explica.
Educação Infantil: Oferta e Qualidade em Foco
Na educação infantil, Ramos destaca a necessidade de ampliar a oferta de creches, já que a meta do Plano Nacional de Educação (PNE) ainda não foi alcançada. Além disso, ele ressalta a importância de garantir a qualidade do atendimento, vinculada ao desenvolvimento integral da criança. “Essa etapa é estratégica para o futuro do país e precisa contemplar tanto a oferta quanto a qualidade do ensino”, observa.
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Ivan Gontijo lembra que a alfabetização na idade certa tem apresentado avanços, mas reforça a necessidade de intensificar essa agenda para melhorar os indicadores nacionais.
Ensino Fundamental e a Prioridade do Tempo Integral
Para o ensino fundamental, Cláudia Costin defende que a escola em tempo integral deve ser “prioridade absoluta” no próximo governo. Ela explica que esse modelo deve ir além do formato tradicional de dois turnos com oficinas no contraturno, adotando uma jornada mais integrada e flexível. “O sistema ideal inclui sete horas de aula com atividades complementares, recuperação de aprendizagem e aulas mais práticas, fortalecendo o vínculo entre professor e aluno”, detalha.
Outros temas relevantes para essa etapa são a alfabetização com foco em equidade entre estados, a cooperação entre estados e municípios para resultados eficazes e a melhoria na formação docente, especialmente em Matemática.
Ensino Médio: Ajustes e Expansão dos Cursos Técnicos
O ensino médio requer atenção especial na expansão das escolas em tempo integral e no acompanhamento das reformas em andamento. Ivan Gontijo destaca a importância de apoiar estados e municípios na adaptação dessas mudanças para garantir sua efetividade.
Mozart Neves Ramos acrescenta que o currículo precisa passar por ajustes para se alinhar às novas tecnologias e às demandas do jovem contemporâneo. “O ensino médio deve conectar-se com a vida dos estudantes, evitando que eles busquem alternativas fora da escola”, explica.
Outro ponto crítico é a desigualdade na oferta de cursos técnicos integrados ao ensino médio. O especialista cita o exemplo do Piauí, que alcança 100% das matrículas em tempo integral com cursos técnicos, enquanto outros estados apresentam índices muito inferiores. Ele também ressalta a necessidade de revisar incentivos para reduzir a evasão escolar.
Ensino Superior: Formação Docente e Alinhamento com o Mercado
Para a educação superior, Cláudia Costin enfatiza a importância de valorizar a carreira docente e aprimorar a formação dos professores nas universidades. “É fundamental que o professor seja especialista em sua área e no processo de aprendizagem de crianças e adolescentes”, destaca.
Mozart Neves Ramos defende uma reforma nos cursos superiores que priorize competências e habilidades essenciais para o mercado de trabalho, em vez de focar exclusivamente no conteúdo. Ele propõe a criação de um observatório dos egressos para orientar essas mudanças de forma alinhada às demandas reais do mercado.
Os especialistas concordam que fortalecer a educação em todas as etapas exige propostas mais robustas e detalhadas, com foco prático para garantir avanços concretos na aprendizagem de estudantes em todo o Brasil.
