Negócio bilionário no setor de terras raras
A Lynas Rare Earths anunciou a aquisição da Meteoric Resources por cerca de A$ 968 milhões (aproximadamente R$ 3,5 bilhões). Com essa operação, a empresa australiana passará a controlar o projeto Caldeira, um dos principais empreendimentos de terras raras em Minas Gerais.
A Meteoric Resources, também de origem australiana, é a responsável pelo desenvolvimento do Caldeira, que se destaca no cenário brasileiro pela sua importância estratégica no setor mineral. A compra será realizada por meio de troca de ações, na qual os acionistas da Meteoric receberão 0,0207 ação da Lynas para cada papel que possuem, equivalente a A$ 0,286 por ação, valor 68,4% superior ao preço de fechamento em 30 de setembro.
Processo de aprovação e legislação brasileira
A concretização da transação depende da aprovação dos acionistas da Meteoric, autorização judicial e aval regulatório. A expectativa é de que os detalhes sejam apresentados aos acionistas em dezembro, com assembleia marcada para janeiro de 2027 e conclusão prevista até março do mesmo ano.
Além disso, a operação precisa passar pela aprovação brasileira para mudança de controle da Meteoric, conforme a nova lei de minerais críticos sancionada em setembro. Essa legislação criou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE) e exige homologação para mudanças de controle em empresas com direitos minerários ligados a minerais estratégicos.
Significado estratégico das terras raras
As terras raras são 17 elementos químicos essenciais para a fabricação de celulares, veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos de defesa. Embora o nome sugira escassez, o desafio é encontrar depósitos economicamente viáveis, com concentração adequada para extração.
Esses minerais têm alto valor estratégico, motivo pelo qual grandes potências disputam seu controle. A China domina cerca de 70% da produção mundial, concentrando também etapas-chave do processamento e fabricação de ímãs. Essa dependência levou Estados Unidos e União Europeia a buscar novas fontes para reduzir a exposição ao mercado chinês.
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O papel do Brasil no mercado global
O Brasil detém grandes reservas de terras raras, com ocorrências em Goiás, Minas Gerais, Bahia e Amazonas. Segundo dados oficiais, o país possui a segunda maior reserva mundial dessas substâncias. O interesse internacional fica evidente nas negociações entre Brasil e Estados Unidos, especialmente em meio às tensões tarifárias recentes.
O Instituto Brasileiro de mineração (Ibram) destaca o interesse americano em firmar acordos para aquisição de minerais estratégicos brasileiros. O valor comercial desses elementos é significativo: o quilo de neodímio e praseodímio custa cerca de € 55 (R$ 323), enquanto o de térbio ultrapassa € 850 (aproximadamente R$ 5 mil).
Investimentos recentes e projetos em operação
Em agosto, a americana USA Rare Earth garantiu US$ 1,55 bilhão (R$ 7,7 bilhões) para concluir a compra da Serra Verde, mineradora que opera a mina Pela Ema em Goiás. Essa mina produz neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, usados em veículos elétricos, eletrônicos, sistemas de energia e equipamentos militares. Parte do valor, US$ 750 milhões (R$ 3,8 bilhões), veio do governo dos EUA.
Detalhes do projeto Caldeira
O principal ativo adquirido pela Lynas será o projeto Caldeira, descrito como o maior recurso conhecido de terras raras em argilas iônicas fora da China. O local possui recursos minerais estimados em 128 milhões de toneladas e já conta com um estudo definitivo de viabilidade que avalia os aspectos técnicos e econômicos do empreendimento.
Segundo a Lynas, o Caldeira abriga 802 mil toneladas de óxidos de neodímio e praseodímio (NdPr) e 41 mil toneladas de óxidos de disprósio e térbio (DyTb). Esses elementos são fundamentais na fabricação de ímãs de alto desempenho, com potencial produtivo anual de cerca de 3.862 toneladas de NdPr e 127 toneladas de DyTb.
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Investimento e integração operacional
Desenvolver o Caldeira exigirá investimento superior a US$ 500 milhões (aproximadamente R$ 2,6 bilhões). A Lynas pretende explorar no Brasil etapas do processamento das terras raras e integrar a produção do projeto às suas operações na Austrália e na Malásia, ampliando sua presença global.
Impacto para acionistas e operação financeira
Com a conclusão da aquisição, os acionistas atuais da Meteoric terão cerca de 5,9% das ações da Lynas, considerando a diluição completa. O conselho da Meteoric recomendou unanimemente a aprovação da operação, desde que nenhuma proposta superior surja e um especialista independente confirme que o negócio é vantajoso para os acionistas.
O maior acionista da Meteoric, Tolga Kumova, que detém aproximadamente 6,7% das ações, também manifestou intenção de apoiar a operação sob essas condições.
Financiamento e continuidade da equipe
Parte do acordo prevê uma linha de financiamento da Lynas de até A$ 110 milhões (cerca de R$ 396 milhões) para custear o desenvolvimento do Caldeira, despesas operacionais e capital de giro durante o processo. Uma primeira parcela de A$ 35 milhões (R$ 126 milhões) será liberada após a assinatura do acordo, com o restante condicionado a determinadas condições.
A Lynas pretende manter a equipe atual da Meteoric, aproveitando seu conhecimento do projeto e do setor mineral brasileiro para garantir a continuidade e o sucesso do empreendimento.
