Minas Gerais e o Papel Decisivo nas Eleições Presidenciais
A eleição presidencial de 2026 reforçou um padrão histórico da política brasileira: o candidato que vence em Minas Gerais geralmente conquista a presidência. No segundo turno, Lula obteve 51,79% dos votos válidos em todo o País, enquanto Flávio Bolsonaro alcançou 48,21%. Entretanto, em Minas Gerais, a disputa foi muito mais acirrada, com Lula conquistando 50,43% e Bolsonaro 49,57%. Esse cenário confirma a relevância do estado como termômetro eleitoral, mas também evidencia limites nessa interpretação tradicional.
Virada Eleitoral e Distribuição Territorial dos Votos
Minas foi o único estado onde a liderança mudou entre os dois turnos: Flávio Bolsonaro venceu o primeiro com 48,2%, contra 43,3% de Lula, que reverteu essa diferença no segundo turno. Para entender essa virada, é fundamental analisar a distribuição dos votos pelos 853 municípios mineiros, pois os dados agregados não contam toda a história.
Lula venceu em mais municípios no primeiro turno, 452 contra 401 de Bolsonaro, e ampliou essa vantagem para 528 no segundo turno, enquanto Bolsonaro liderou em 325. Curiosamente, os 76 municípios que mudaram de Flávio para Lula não tiveram reversão no sentido contrário. Essa mudança, contudo, não foi uniforme.
Regiões e Bases de Apoio no Estado
Lula manteve sua predominância no Norte e Nordeste mineiros, especialmente nos vales do Jequitinhonha e do Mucuri. Flávio Bolsonaro, por sua vez, consolidou-se no Triângulo Mineiro, no Oeste e em partes do Sul. Na região Central, no entorno metropolitano de Belo Horizonte e em municípios do Sul, a disputa ficou mais fragmentada.
Essa dinâmica mostra que a ampliação das vitórias municipais de Lula não eliminou as bases territoriais da direita. O segundo turno alterou a distribuição dos vencedores, mas manteve os contrastes regionais que definem a geografia política mineira.
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A Dimensão dos Deslocamentos nos Municípios
Em 56 dos 76 municípios que mudaram para Lula, a vantagem inicial do candidato do PL era inferior a 500 votos, como em São Joaquim de Bicas, onde Flávio venceu por apenas um voto (8.139 contra 8.138). Pequenas variações eleitorais foram suficientes para reverter o resultado.
Essa virada ocorreu em diferentes tipos de municípios: industriais e mineradores, como Itabirito, João Monlevade e Congonhas; cidades do entorno metropolitano de Belo Horizonte, como Santa Luzia, Ibirité, Sabará e Juatuba; e municípios do Sul, como Três Pontas, Cambuquira e Guaxupé. A mudança não se restringiu às áreas de maior tradição petista, atingindo municípios competitivos em várias regiões.
Peso dos Grandes Centros Urbanos na Virada
A virada em 76 municípios representa uma parte da análise. O crescimento da votação de Lula em números absolutos, especialmente nas grandes cidades, foi decisivo para a vitória estadual. Belo Horizonte teve o maior aumento, com 149.091 votos adicionais entre os turnos. Outras cidades também apresentaram crescimento significativo: Uberlândia (40.122), Contagem (34.561), Juiz de Fora (33.400), Betim (22.202), Montes Claros (21.151) e Uberaba (18.715).
Nos 30 municípios com maiores acréscimos absolutos, Lula conquistou 529.203 votos a mais no segundo turno. Esses dados revelam que, mesmo sem mudar o vencedor em alguns grandes centros, o aumento na votação foi crucial para reequilibrar a disputa estadual.
Esse crescimento não ficou restrito à capital e sua região metropolitana, mas também atingiu o Triângulo Mineiro, a Zona da Mata, o Norte de Minas e o Vale do Aço, indicando uma recomposição eleitoral que envolveu diferentes polos urbanos e regiões.
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Minas Gerais: Termômetro e Complexidade Eleitoral
O resultado em Minas Gerais em 2026 reforça sua importância na eleição presidencial, mas alerta para a complexidade de seu comportamento eleitoral. O estado apresenta diferenças regionais marcantes, municípios altamente competitivos e grandes centros urbanos com peso decisivo no total de votos.
A vitória de Lula combinou a expansão territorial das suas vitórias municipais com o aumento absoluto da votação em cidades populosas. Essa combinação não eliminou o apoio significativo a Flávio Bolsonaro em várias áreas.
Assim, a análise dos resultados municipais não basta para entender o impacto das campanhas, lideranças locais ou variações no comparecimento eleitoral, mas ajuda a identificar as mudanças no equilíbrio da disputa e a distinguir a ampliação territorial da votação absoluta.
Minas Gerais demonstra que a disputa presidencial pode ser decidida pela conjunção de movimentos eleitorais distintos, revelando uma geografia eleitoral heterogênea. A virada de Lula ocorreu dentro dessa complexidade, e compreender esse resultado requer atenção a onde e como as vantagens eleitorais foram alteradas.
Marta Mendes da Rocha é doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e professora associada do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Dilla Roman é mestranda em Ciências Sociais pela UFJF e pesquisadora do Núcleo de Estudos de Política Local na mesma instituição.
