Uma Nova Era nas Forças Armadas Brasileiras
A recente prisão de militares de alta patente, incluindo um ex-presidente e ex-ministro da Defesa, representa um divisor de águas no panorama político e nas relações entre civis e militares no Brasil. O Supremo Tribunal Federal (STF) acusou 27 militares de envolvimento em uma tentativa de golpe, resultando em sua condenação e transformação em réus.
As consequências desse processo legal podem ser significativas. O Superior Tribunal Militar (STM) está agora encarregado de decidir se esses oficiais, além do presidente, devem ser destituídos de suas patentes por serem considerados indignos do cargo. O desfecho desse julgamento é incerto e pode gerar polêmicas.
A reação das Forças Armadas a esse evento demonstra uma mudança importante em sua postura. Desde 1985, as FFAA têm se mantido relativamente afastadas da política, com raras exceções. Apesar de tentativas de envolvê-las durante o governo anterior, não houve manifestações públicas ou protestos contra as condenações e penas aplicadas aos que desafiaram a democracia. Este é um marco significativo: pela primeira vez em 40 anos, o Brasil não testemunhou uma intervenção militar na esfera política.
Um Julgamento Sem Precedentes
Desde a deposição do imperador Pedro II em 1889 até o golpe militar de 1964, o Brasil vivenciou 14 intervenções militares em sua política. Com isso, pela primeira vez, os responsáveis por movimentos antidemocráticos enfrentaram acusação, julgamento e condenação. A prática da anistia, comum em insurreições anteriores, não se aplicou aqui, pelo menos até o momento.
Recentemente, uma pesquisa da AtlasIntel/Estadão revelou que a confiança da população nas instituições está em baixa, com o Exército e as FFAA apresentando 60% de desconfiança, o que os coloca em penúltimo lugar, superados apenas pelo Congresso. Alterar essa percepção negativa é uma das principais razões para que se inicie um novo capítulo na história do Brasil.
Reformas Necessárias na Constituição
Para selar este período complexo da história nacional, o Congresso deve considerar a proposta de emenda constitucional (PEC) que visa modificar o artigo 142 da Constituição. Esse artigo estabelece que “As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do presidente da República e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos Poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.”
A alteração pretendida é a remoção da parte final que menciona a “garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”. A intenção é deixar explícito que, segundo o entendimento do STF, as FFAA não devem exercer um papel de mediadoras em crises políticas internas no Brasil.
Essas reformas podem ser fundamentais para virar uma página significativa da história brasileira, que se estende por 137 anos de participação militar ativa na política do país. Assim, reforçaria a subordinação das FFAA às leis e à Constituição, promovendo um ambiente democrático mais sólido e respeitável.
