Celebrando a Revolução Musical de John Coltrane
John Coltrane, um ícone indiscutível do jazz, é reconhecido como um divisor de águas na música improvisada e na concepção de performance. Com sua maestria no saxofone e uma energia contagiante, seu legado permanece vivo até hoje. Para relembrar sua influência, a Casa Fiat de Cultura promove, nesta quinta-feira (30/4), um tributo especial no Dia Internacional do Jazz, em sua primeira edição do projeto Na Sombra das Mangueiras. O evento contará com uma apresentação do Vinicius Mendes Quarteto.
“Coltrane elevou o jazz a um patamar excepcional”, afirma Vinicius Mendes, saxofonista e líder do quarteto. “O que torna sua obra única é a forma como ele transformou o improviso em uma linguagem essencial, criando quase um novo idioma para o saxofone em perfeita harmonia com seu quarteto, que incluía o pianista McCoy Tyner, o baterista Elvin Jones e o baixista Jimmy Garrison”, explica.
Homenagear Coltrane, cuja obra é marcada pela improvisação, é sem dúvida um desafio. O quarteto mineiro, formado especialmente para o evento, é composto por Vinicius Mendes (saxofone e voz), Rodrigo Zolet (piano), Davi de Oliveira (baixo acústico) e André Limão Queiroz (bateria). Eles optaram por estruturar suas apresentações com base nas composições originais, evitando, no entanto, a reprodução literal das obras do artista.
“O jazz é fundamentalmente uma música de improviso”, pontua Vinicius. “Executamos os temas, mas sempre abrimos espaço para a criação espontânea”, completa.
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Free Jazz e Estruturas Musicais
A proposta do concerto é seguir a tradicional estrutura do jazz, que se baseia na sequência de “tema, improviso e tema”. Mesmo os fragmentos mais conhecidos das composições de Coltrane não são tocados de forma estrita, mas sim adaptados para a performance.
Com duração aproximada de 60 minutos, o repertório abrange as principais fases da carreira de Coltrane, transitando do hard bop ao free jazz, incluindo os complexos “Coltrane changes” e a fase modal.
No período do hard bop, que abrange suas composições entre 1955 e 1959, as músicas apresentam estruturas mais reconhecíveis, com influências do blues e do gospel, onde um tema claro serve como fundamento para os improvisos. Durante a fase dos “Coltrane changes”, ocorrida entre 1959 e 1961, Coltrane empurrou os limites da linguagem harmônica, criando sequências de acordes intricadas e tocadas em alta velocidade.
Após esse período, sua música evolui para a fase modal, na primeira metade da década de 1960, onde a quantidade de acordes é reduzida, permitindo maior liberdade e profundidade nos improvisos. Essa transformação culmina na fase radical de Coltrane a partir de 1965, quando ele se aproxima do free jazz, rompendo com as estruturas tradicionais e criando uma sonoridade mais intensa e imprevisível.
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A Espiritualidade na Música de Coltrane
Além das inovações em termos técnicos, Vinicius Mendes ressalta a dimensão espiritual presente na música de Coltrane, especialmente a partir do álbum “A Love Supreme”. Essa fase dialoga com as raízes do jazz, incorporando elementos como spirituals, work songs e blues.
A conexão espiritual é forte em suas melodias, que carregam uma intensa carga emocional e coletiva, frequentemente refletindo práticas religiosas e a luta pela resistência. As work songs, cantadas por trabalhadores negros, possuem um ritmo repetitivo e uma relação íntima entre corpo e som.
O blues se estabelece como uma forma musical que concentra essa herança em uma expressão individual, refletindo experiências cotidianas. Coltrane, ao integrar esses elementos em sua música, se aproxima da ideia de expressão coletiva e de busca espiritual.
“Na música de Coltrane, há uma poética que se assemelha ao canto”, afirma Vinicius Mendes. “Mesmo em momentos de liberdade total na composição, a presença do blues é inegável”, conclui.
A Influência de Coltrane no Brasil
A marca deixada por John Coltrane se estende até os dias atuais, alcançando músicos brasileiros que continuam a dialogar com sua herança musical. O pianista Amaro Freitas é um exemplo citado por Vinicius Mendes, que reflete essa influência em seu trabalho.
Vinicius, por sua vez, incorpora aspectos do estilo de Coltrane em suas próprias criações, buscando liberdade na expressão e na execução. “Coltrane, sem dúvida, é um músico que elevou o jazz a um novo nível”, finaliza.
