Releitura cultural da trajetória de Chica da Silva
A nova ópera “Chica da Silva”, que estreia neste sábado em Belo Horizonte, evita as versões estereotipadas da personagem para explorar sua humanidade e os dilemas sociais do século 18. Distante da imagem carregada de lascívia presente no filme de Cacá Diegues (1976) e das controvérsias da adaptação televisiva dos anos 1990, a produção do Palácio das Artes oferece uma perspectiva que valoriza a complexidade de uma mulher negra em um contexto marcado por desigualdades raciais e econômicas.
Com apresentações também previstas para segunda e quarta-feira, a ópera investiga a vida de Chica da Silva a partir de uma narrativa que mistura paixão e tensões sociais, trazendo à tona as contradições do período colonial brasileiro. Antes da estreia, uma versão reduzida chamada “Chica em Diamantina” foi apresentada em uma praça da histórica cidade mineira, ampliando o alcance da obra.
Construção dramatúrgica e contexto histórico
O cineasta Marcos Bernstein, que assina o libreto junto com Flávia Bessone, destaca o esforço para equilibrar as percepções externas da personagem com seus possíveis desejos e angústias. Bernstein, conhecido por trabalhos como “Meu Pé de Laranja Lima” (2013) e como roteirista de “Central do Brasil” (1998), afirma que a intenção é revelar uma mulher que, apesar das limitações impostas pela época, alcançou o máximo de autonomia possível.
Chica da Silva, nascida entre 1731 e 1735, filha de mãe escravizada africana e pai branco, ascendeu socialmente na região de Diamantina, então Arraial do Tejuco, durante o auge da extração de diamantes. Alforriada pelo contratador João Fernandes de Oliveira, com quem viveu em união estável por 17 anos, teve 13 filhos reconhecidos pelo pai, desafiando as normas legais e sociais do período.
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Fonte: acreverdade.com.br
O tenor Ewandro Stenzowski, que interpreta João Fernandes, ressalta que negar o relacionamento amoroso deles é negar a própria essência de Chica da Silva. O primeiro ato da ópera destaca os obstáculos enfrentados pelo casal inter-racial, explorando as tensões de uma relação marcada por preconceitos e desejos de liberdade.
Em uma das cenas marcantes, o contratador expressa seu fascínio pela força e independência de Chica, enquanto se questiona sobre o futuro da amada após sua alforria. O momento culmina em um dueto que simboliza uma declaração de amor, acompanhada por uma simbólica iluminação que reforça o significado da carta de alforria, enquanto o casal caminha unido para fora do palco.
Voz e experiência na interpretação
A soprano paulista Marly Montoni, que vive a personagem-título, compartilha que sua vivência pessoal contribuiu para a composição da personagem. Também filha de mãe negra e pai branco, e vivendo um relacionamento inter-racial, Montoni percebeu afinidades que a ajudaram a construir uma Chica da Silva com profundidade emocional, sem recorrer a estereótipos.
Apesar de o libreto ter como base pesquisas históricas, incluindo a biografia da historiadora Júnia Ferreira Furtado (2003), a montagem aposta na ficção para intensificar o drama e provocar reflexões atuais sobre raça, poder e resistência. A soprano enfatiza que a resistência em reconhecer pessoas negras em posições de destaque ainda persiste, o que torna a história de Chica ainda mais relevante.
Elementos afro-brasileiros e homenagem cultural
A direção cênica, assinada por Julianna Santos, incorpora referências da cultura afro-brasileira para celebrar o legado de Chica da Silva. A presença do congado, da capoeira e de símbolos africanos chamados “adinkras” no cenário resgata a influência silenciosa, porém fundamental, das raízes africanas na formação do Brasil colonial.
Julianna destaca que a montagem coloca em evidência as marcas culturais que historicamente foram relegadas ao silêncio, trazendo à tona o papel de quem realmente ajudou a construir o país. A ópera reforça o compromisso do Palácio das Artes com a valorização da cultura mineira, seguindo a linha de produções como “Aleijadinho” (2022).
A direção-geral é de Cláudia Malta, a música foi composta por Guilherme Bernstein, e a direção musical e regência ficaram sob a responsabilidade de André Brant. A produção integra as comemorações dos 55 anos do Palácio das Artes, reafirmando o espaço como palco para narrativas que dialogam com a história e as transformações sociais do Brasil.
