A Virada de Haddad na Política Paulista
A política é um campo onde renascimentos são possíveis sem que se precise realmente partir. Nos últimos três anos e três meses à frente do Ministério da Fazenda no governo Lula, Fernando Haddad passou por diversas reviravoltas. Ele enfrentou críticas severas, foi alvo de ataques de seus colegas de governo e viu seu nome ser associado ao termo ‘Taxad’ em meio à crescente carga tributária. Apesar disso, Haddad também foi responsável pela aprovações significativas, como a aguardada reforma tributária e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, contribuindo para um crescimento econômico contínuo durante seu mandato. Na última quinta-feira, Haddad fez um anúncio que surpreendeu: será o candidato do PT ao governo de São Paulo. Embora suas chances de vitória sejam consideradas baixas, essa decisão o posiciona como uma figura-chave para que Lula consiga os votos necessários na busca por um quarto mandato.
Haddad não foi a escolha inicial de Lula para o Ministério da Fazenda quando as negociações começaram em novembro de 2022 na Conferência de Meio Ambiente da ONU, em Sharm El Sheikh. O então presidente eleito ponderou sobre outros nomes, como o senador Jaques Wagner, mas foi Haddad quem apresentou um plano sugerindo como as renúncias fiscais concedidas a diversos grupos nos últimos governos poderiam ser utilizadas para efetivar promessas eleitorais relevantes, como aumentar a inclusão social no orçamento nacional. Assim, Haddad foi nomeado ministro.
A frase ‘Haddad tem um plano’ se tornou comum entre seus antigos auxiliares durante a gestão. No entanto, a relação entre ele e Lula começou sob desconfiança e passou por muitos altos e baixos. Um exemplo disso foi quando Lula, mesmo antes da posse de Haddad, desautorizou a decisão de restabelecer impostos sobre combustíveis, permitindo que essa informação fosse divulgada pela presidente do PT, Gleisi Hoffmann. Em um fato que acentuou a tensão entre eles, Lula criticou publicamente a autonomia do Banco Central, o que fez com que o mercado financeiro visse Haddad com desconfiança, considerando-o um ‘pato manco’ em suas políticas.
Desafios e Conflitos Durante o Mandato
No decorrer do tempo, ficou evidente que Haddad precisava de suporte e confiança, o que levou à formação de uma equipe de assessores próximos, incluindo nomes como Dario Durigan e Marcos Pinto. Um de seus aliados comentou sobre a desconfiança que havia em relação a membros da direita e a sabotagem que vinham de setores da esquerda. Para justificar suas propostas, Haddad frequentemente buscava o apoio de ex-ministros que conheciam bem o funcionamento do governo e a visão de Lula.
No contexto de uma série de vitórias, como a reforma tributária do consumo, Haddad se viu em meio a novas desavenças quando Lula desautorizou o plano de redução do déficit fiscal, uma das principais promessas de sua gestão. Lula expressou que manter um déficit público controlado era uma prioridade, mas não sob a rígida meta imposta pela Fazenda, ressaltando a necessidade de priorizar o financiamento de obras essenciais.
Essa dinâmica conluiu para um embate interno, onde, durante um encontro nacional do PT, Gleisi Hoffmann criticou a política econômica de Haddad como ‘austericida’, reforçando a divisão dentro do partido. O mercado financeiro, por sua vez, reagiu de maneira ambígua, com muitos apoiando Haddad, enquanto outros riam da sua designação como ‘Taxad’ após medidas impopulares.
A Ascensão e os Desafios Finais
À medida que o segundo semestre de 2024 se aproximava, Haddad se encontrava sob pressão devido à possibilidade de mudanças no comando do Banco Central e à tentativa de implementar ajustes fiscais. Embora inicialmente Lula tenha aceitado algumas propostas de ajuste, quando a Fazenda sugeriu cortes que poderiam afetar áreas primordiais como saúde e educação, o presidente se opôs firmemente. Isso culminou em um aumento da taxa de câmbio e uma escalada da taxa Selic, que alcançou níveis alarmantes.
Durante um encontro em fevereiro de 2025, por exemplo, Haddad foi deixado de lado em discussões críticas sobre a crise do Pix, um tema relevante que gerou inquietação popular. Mesmo assim, ele conseguiu reverter parte da situação ao conseguir que Lula aceitasse um aumento de impostos através de um índice que não necessitava da aprovação do Legislativo.
A Estratégia e o Legado de Haddad
Com a crescente popularidade de Flávio Bolsonaro, Haddad se viu obrigado a alinhar sua candidatura com as necessidades eleitorais do PT. Apesar das desavenças, ele pretende usar sua campanha para defender seu legado no ministério, ao mesmo tempo que se posiciona para possíveis cenários futuros após o governo de Lula. Como seus assessores costumam dizer, Haddad ainda tem um plano, e ele está determinado a prová-lo nas urnas.
