Um olhar profundo sobre o racismo na literatura
A ideia de que o tempo pode curar todas as feridas é contestada na obra de estreia do violoncelista mineiro Carlos Márcio, intitulada “Racismo, Constante como o Tempo”. A obra, que ganhou o Prêmio Resistência 2025 da Editora Arte da Palavra, se apresenta como um manifesto, um grito e um ato de amor. Com mais de quatrocentos anos de história, Carlos Márcio, que também é conhecido pelo seu trabalho como violoncelista, desafia a noção de que o racismo é um problema do passado, evidenciando que ele persiste e se adapta ao longo dos anos.
O livro conta com a contribuição de vozes importantes, como a professora e ativista Rosália Diogo, que assina o prefácio, e Carlos Aleixo dos Reis, que escreve o posfácio. Ambos destacam a relevância da obra, que “nasce da pele e do arco do violoncelo, transformando a dor em ritmo e o silêncio imposto em linguagem de enfrentamento”.
Eventos de lançamento em Minas Gerais
O lançamento oficial de “Racismo, Constante como o Tempo” ocorrerá no dia 23 de maio, às 20h, no Teatro Municipal de Sabará, com um Concerto-Lançamento que integrará palavras e música, permitindo que o autor compartilhe sua performance ao violoncelo. Essa experiência promete ser uma das mais marcantes da agenda cultural da cidade. Carlos Márcio também planeja um evento em Belo Horizonte, no Auditório Vivaldi Moreira, no dia 20 de maio, às 20h, além de apresentações em Divinópolis no dia 11 de junho e na Casa Canjerê em Belo Horizonte no dia 27 do mesmo mês. Em julho, o lançamento se dará em Diamantina, no Ateliê do Choro, e em novembro, o autor participará da Semana da Consciência Negra em Ouro Branco.
A intersecção entre música e literatura
Natural de Sabará, Carlos Márcio é graduado em violoncelo e possui um mestrado em Performance Musical pela UFMG. Ele navega com facilidade entre a música erudita e a literatura, conectando sua própria trajetória com a memória coletiva da população negra. Em suas palavras, “O violoncelo me emprestou um ouvido para o mundo; a escrita me deu uma língua para que tantos olhos enxerguem os silêncios que insistentemente são naturalizados”. Essa perspectiva única como artista negro em um ambiente historicamente dominado por brancos adiciona uma camada significativa à sua produção literária.
A obra é composta por três partes distintas. Nos poemas, a ironia e a dor se entrelaçam, refletindo experiências diárias de racismo, desde abordagens policiais até barreiras sociais. Um momento marcante ocorreu no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, onde Carlos enfrentou situações constrangedoras em seu ambiente de trabalho. Já nas crônicas, o autor documenta microagressões e absurdos que a sociedade muitas vezes ignora. O ensaio “Devoção, memória e racismo estrutural: caminhos da escuta” serve como um inventário de horrores, ligando eventos históricos, como a bula papal que autorizou a escravidão no século XV, a experimentos médicos no século XX e a continuidade de um passado que insiste em não ser deixado para trás.
Um chamado à reflexão e ao ativismo
Além de confrontar a romantização de figuras históricas ligadas à escravidão, Carlos Márcio também aborda a falta de controle que muitos músicos, incluindo ele, enfrentam em suas rotinas. Ele destaca que, em 90% das vezes, não se toca a música que se deseja. Essa realidade se torna ainda mais evidente ao trabalhar em produções que não refletem suas convicções pessoais. Assim, ao participar de uma ópera sobre um bandeirante escravagista, o autor se depara com o silêncio imposto aos corpos negros, um eco de séculos de apagamento. Em resposta a essa opressão, ele inscreve na dedicatória de seu livro um poderoso verso: “A todos que um dia me fizeram sentir o racismo: vocês despertaram em mim a escrita. Agora, leiam. Se puderem”. Este convite à leitura e à reflexão transforma sua experiência de subalternidade em um ato de resistência e criação.
A trajetória de Carlos Márcio
Conhecido como Carlos Márcio Norberto Bicalho, o autor é violoncelista da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e começou sua trajetória musical aos 17 anos, através de um projeto social. Embora a ideia de publicar livros tenha surgido tardiamente, a escrita já era uma ferramenta de cura para ele frente ao racismo cotidiano. “Tudo que foi escrito no livro não cabe nas conversas sociais porque nós estamos cansados”, explica o autor. Sua obra é um reflexo de suas experiências pessoais e uma exploração profunda da História, permitindo que ele expresse que “a Lei Áurea foi sussurro de liberdade, fábula de igualdade e alegoria de fraternidade”.
Após a doença de sua avó, Maria, que sofria de Alzheimer, Carlos sentiu a urgência de registrar suas histórias, levando-o a um compromisso ainda maior com sua escrita. Em 2025, aos 38 anos, ele foi laureado com o Prêmio Resistência, confirmando sua posição na literatura e oferecendo ao público uma produção onde música e palavra se entrelaçam para romper o silêncio histórico.
