Um Mergulho no Tempo do Fio
A arte têxtil, longe de ser uma prática relegada, ganha destaque nas mostras contemporâneas, refletindo uma redescoberta do valor das atividades manuais. Em Belo Horizonte, três exposições simultâneas exploram as possibilidades do fio, cada uma trazendo nuances de significado e estética que nos convidam a refletir sobre o presente de maneira mais profunda.
A primeira delas, “Gestos Tecidos no Tempo”, de Isabel Miranda, foi inaugurada durante o feriado de Tiradentes com uma performance musical de Sérgio Pererê. A artista utiliza tecidos e referências da sua vivência familiar para construir uma narrativa que remonta à sua infância. Com elementos como a argila que revestia as paredes de sua casa, Isabel conecta o passado à sua prática artística atual. Segundo a curadora Luíza Marcolino, a exposição propõe um diálogo entre corpos e terreiros, enfatizando a relação entre a terra e suas memórias.
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A série tríptica que compõe a exposição apresenta registros fotográficos de uma performance, destacando tranças e o corpo feminino, numa intersecção de gerações e experiências. Essa conexão é reforçada por fios tingidos em tons terrosos, que surgem como elementos de continuidade e força nas obras, entrelaçando-se com galhos de árvores, criando uma instalação que dialoga com a natureza.
Rita de Souza e o Reparar Entre Linhas
A Piccola Galeria da Casa Fiat abriga a individual “Reparar Entre Linhas” de Rita de Souza, que apresenta 14 obras que transitam entre bordado e desenho. Com uma abordagem que questiona o conceito de reparar, Rita explora a memória e a resistência através do uso da chita como base de seus trabalhos. A artista transforma os retalhos e cortes em novas linhas que carregam outras temporalidades, desafiando a estética da produção em massa.
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Os trabalhos de Rita destacam a beleza nas imperfeições, alinhando-se ao conceito japonês do wabi-sabi, que valoriza a simplicidade e as marcas do tempo. A curadora Lorena D’Arc observa que a artista dá uma nova visibilidade ao que poderia ser considerado banal, ressaltando a importância dos gestos manuais e têxteis na arte contemporânea. A exposição permanece em cartaz até 24 de maio na Casa Fiat de Cultura.
A Tecitura do Feminino em Debate
No CCBB-BH, “Tecitura do Feminino”, de Marlene Barros, propõe um questionamento sobre a desvalorização do trabalho feminino associado ao artesanato. Apesar de abordar temas relevantes, a exposição é criticada por não conseguir ir além de metáforas desgastadas, repetindo imagens que, embora impactantes, não trazem novas interpretações à discussão.
As obras de Marlene, que incluem rostos costurados e instalações que buscam causar impacto nas redes sociais, levantam questionamentos sobre a originalidade e a relevância de suas propostas. O uso de feltro, por exemplo, resulta em uma obra que provoca reflexões sobre a precariedade dos materiais e a presença da arte no cotidiano.
Com a realização de ações formativas e visitas mediadas, a exposição busca engajar o público nas questões ligadas ao feminino e à arte como um ato político. Marlene Barros ficará em cartaz até 1º de junho, completando o ciclo de exposições que refletem a importância do fio na arte contemporânea e sua capacidade de provocar diálogos significativos.
