Desafios do Saneamento Básico em Minas Gerais
Minas Gerais, segundo estado mais populoso do Brasil, enfrenta um cenário preocupante no que diz respeito ao saneamento básico. Apesar de contar com uma cobertura de água canalizada de 82,5%, apenas 62,5% da população tem acesso à coleta de esgoto, números que revelam um atraso significativo. A legislação vigente estabelece que, até 2033, o país deve alcançar 99% de cobertura para água e 90% para esgoto. No estado, cerca de 83% da população é atendida por rede de água e 75% por coleta de esgoto, ainda distantes dos objetivos legais.
A Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), empresa de economia mista controlada pelo governo estadual, atende a maioria dos municípios mineiros. A companhia apresenta uma cobertura superior à média do estado e do país, com 99% no abastecimento de água tratada e 80,2% na rede de esgoto. Porém, o desafio para alcançar a universalização do saneamento é grande, especialmente diante da situação fiscal delicada do estado.
Privatização da Copasa: Expectativa e Adiamento
Com o objetivo de viabilizar os investimentos necessários para atingir as metas do saneamento, o governo de Minas Gerais vinha planejando a privatização da Copasa, empresa avaliada em quase R$ 20 bilhões e que atende 12 milhões de clientes. A expectativa era que a venda, inicialmente prevista para o dia 27 de maio de 2026, pudesse injetar cerca de R$ 10 bilhões nos cofres públicos, ajudando a reduzir a dívida do estado, que ultrapassa R$ 200 bilhões.
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Entretanto, o leilão foi suspenso devido a “fatores supervenientes”, segundo o governo. No dia anterior à data prevista, as empresas Aegea e Equatorial apresentaram propostas rivais para adquirir 30% da Copasa, como acionista de referência, conforme o modelo de privatização. A decepção com os valores ofertados levou a companhia a estabelecer um preço mínimo por ação, fixado em R$ 47,23, 12% abaixo da cotação anterior à suspensão da venda. As concorrentes agora têm até 3 de junho para apresentar novos valores.
Contexto Fiscal e Impactos Econômicos
A privatização da Copasa é uma pauta antiga, defendida pelo ex-governador Romeu Zema, que em 2025 conseguiu alterar a Constituição estadual para permitir a operação sem a necessidade de referendo popular. Zema e seu sucessor, Mateus Simões, contavam com a desestatização ainda no primeiro semestre de 2026 para aliviar as finanças do estado e acelerar os investimentos no setor.
Segundo Luana Pretto, diretora-executiva do Instituto Trata Brasil, Minas Gerais investe atualmente R$ 125 por habitante ao ano em saneamento, valor inferior aos R$ 223 necessários para cumprir as metas do Marco do Saneamento, aprovado em 2020. O estado também fica atrás da média nacional, que é de R$ 137 por habitante.
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Marcus Pestana, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente, destaca que a situação fiscal mineira é uma das mais críticas do país, com uma alta carga de repasses para os poderes Legislativo e Judiciário, que absorvem 17% da receita estadual, cinco pontos percentuais acima da média nacional. Esse cenário limita a capacidade do governo de investir em áreas prioritárias, como o saneamento básico.
Consequências para o Mercado e Expectativas Futuras
Com a privatização, a participação do governo estadual na Copasa cairia dos atuais 50,03% para menos de 5%, reduzindo sua influência significativamente em relação à Sabesp, de São Paulo, onde o governo mantém 18% das ações. Após o adiamento da venda, as ações da Copasa recuaram mais de 4%, refletindo a insatisfação do mercado com a decisão.
No entanto, a valorização acumulada superior a 100% nos últimos 12 meses demonstra o interesse e a esperança dos investidores na desestatização da companhia. O novo prazo para envio das propostas, até 3 de junho, será decisivo para o futuro da privatização e para o avanço do saneamento em Minas Gerais.
