A crise da confiança na ciência e suas causas
Mesmo aqueles que cresceram intelectualmente questionando o cientificismo limitado estão surpresos com a rapidez da queda da confiança na metodologia científica. A ameaça não vem apenas das fake news e das bolhas ideológicas que corroem a ciência externamente; há também fissuras internas que se ampliam rapidamente.
Historicamente, sempre houve incentivos que levaram à manipulação de dados e imagens para garantir posições e verbas em pesquisas. Contudo, com o avanço da inteligência artificial, a desonestidade científica deixou de ser um processo artesanal, entrando na era da reprodutibilidade generativa.
Impactos da desonestidade e os desafios para a medicina baseada em evidências
Embora existam hoje mais ferramentas técnicas para detectar fraudes, o número de retratações de artigos científicos aumentou significativamente. No entanto, suspeita-se que o volume total de publicações cresce tão rápido que nem vigilantes humanos nem robóticos conseguem acompanhar.
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Fonte: joinews.com.br
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Fonte: bh24.com.br
Grande parte dos trabalhos fraudulentos escapa do cancelamento. Mesmo os artigos retratados continuam circulando como “zumbis”, sendo citados em outras pesquisas ou, especialmente na biomedicina, contaminando revisões sistemáticas — aquelas que reúnem dados estatísticos para avaliar a eficácia e segurança de tratamentos e guiar práticas clínicas.
A medicina baseada em evidências considera a base de dados Cochrane como referência máxima da objetividade científica. Revisões sistemáticas aprovadas pela Cochrane consolidam consensos clínicos e orientam diretrizes médicas e políticas públicas. Uma auditoria interna revelou que quase 1% das 9.500 revisões da Cochrane incluem esses artigos “mortos-vivos”. Agora, há um esforço para identificar esses trabalhos e avaliar se eles comprometem as conclusões das revisões.
O impacto das convicções ideológicas e o desafio das mudanças climáticas
Esse cuidado é uma pequena demonstração de racionalidade frente ao tsunami de desinformação que mina o valor das evidências científicas. Hoje, políticas públicas e diretrizes clínicas também são definidas, se não mais, por convicções ideológicas, como ficou evidente durante a pandemia.
No campo da ciência climática, o equivalente à Cochrane é o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), alvo constante do negacionismo. Apesar de críticas válidas e fabricadas, o IPCC resiste às pressões da indústria dos combustíveis fósseis.
Recentemente, no encontro preparatório para a COP31 na Turquia, encerrado em Bonn, o IPCC voltou a ser alvo de questionamentos por países como Arábia Saudita e Índia, que colocam em dúvida suas previsões e até a meta de Paris (2015) de limitar o aquecimento global a 1,5ºC.
Essas disputas ignoram o impacto humano: a Organização Mundial da Saúde calcula que só na Europa 200 mil mortes poderiam ter sido evitadas em quatro anos devido a ondas de calor intensas, como a que atualmente atinge o continente.
