Reintrodução histórica do muriqui-do-norte em Ibitipoca
O maior primata das Américas acaba de retornar às florestas da região de Ibitipoca, em Minas Gerais, em um movimento que marca o início da recolonização local. Nesta quarta-feira (30), três muriquis-do-norte foram reintroduzidos na Mata da Boa Vista, localizada na vertente leste do Parque Estadual do Ibitipoca. A ação foi conduzida pelo Muriqui Instituto de Biodiversidade (MIB), em parceria com o Ibiti Projeto, e representa um avanço significativo para a conservação da espécie, extinta localmente há décadas.
Origem e resgate dos muriquis reintroduzidos
Os muriquis soltos são dois machos e uma fêmea, chamados Jade, Raquel e Planilha, que vieram de um fragmento isolado de aproximadamente 500 hectares no município mineiro de Peçanha. Desde 2017, o MIB monitora essa população, que diminuiu drasticamente de 15 indivíduos em 2020 para apenas oito este ano. Preocupados com o declínio, os pesquisadores capturaram quatro muriquis em março para proteger o grupo. Um dos machos, Xereu, permanece sob cuidados veterinários na Universidade Federal de Viçosa (UFV) para recuperação de um braço quebrado e deve ser reintroduzido assim que estiver apto.
Importância da soltura para a conservação da espécie
A reintrodução desses primatas representa um passo decisivo para proteger o muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus), espécie classificada como Criticamente em Perigo pelo ICMBio. Cada indivíduo tem papel fundamental na preservação genética e na sobrevivência da população. Para acompanhar o progresso dos animais, Raquel, a matriarca do grupo, foi equipada com um colar de GPS, e os pesquisadores usarão drones térmicos e monitoramento em campo para estudar o comportamento e a adaptação ao novo habitat.
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Características da Mata da Boa Vista e próximos passos
Com cerca de 2 mil hectares, a Mata da Boa Vista é uma das maiores áreas contínuas de mata atlântica da região, protegida pelo Ibiti Projeto e vizinha ao Parque Estadual do Ibitipoca. Nas próximas semanas, um segundo grupo de muriquis-do-norte, formado por oito indivíduos, será solto em outro ponto do fragmento florestal. Entre eles estão Luna e Bertolino, os últimos muriquis do município de Ibitipoca, resgatados pelo MIB em 2019. Eles vivem atualmente na Muriqui House, um espaço que simula o ambiente natural para facilitar a socialização e adaptação dos animais antes da soltura.
Socialização e manutenção da diversidade genética
Na Muriqui House, Luna, Bertolino e outros muriquis foram socializados durante sete anos, permitindo que machos e fêmeas interagissem, inclusive com casos de reprodução, como o nascimento de Elliot, filho de Bertolino. A expectativa é que, após a soltura, os grupos se estabeleçam, definam territórios e interajam, como ocorre na natureza, assegurando a troca genética que é essencial para a sobrevivência da espécie.
Projeto pioneiro e impacto para a conservação regional
Fabiano Melo, fundador do MIB e professor da UFV, destaca que essa é a primeira vez que uma reintrodução desse tipo é feita com os muriquis-do-norte, reforçando o pioneirismo e audácia do projeto. As experiências obtidas nesta iniciativa serviram de base para o Programa de Manejo Populacional Integrado dos Muriquis, publicado pelo ICMBio, que orienta as ações de manejo da espécie tanto em cativeiro quanto na natureza.
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A Muriqui House: um ambiente que promove a reintegração
Manter muriquis em cativeiro convencional é um desafio, e a Muriqui House, apoiada pelo Ibiti Projeto, propõe um modelo diferente: um fragmento de mata de 6 hectares com árvores nativas, onde os primatas podem se movimentar livremente, alimentar-se naturalmente e fortalecer a musculatura necessária para a vida selvagem. Após a soltura dos animais atualmente no local, a área continuará a ser usada para socializar muriquis isolados e preparar futuros reintroduzidos.
Esta iniciativa representa um avanço concreto na conservação da biodiversidade mineira, reafirmando o compromisso com a proteção de uma das espécies mais emblemáticas da Mata Atlântica e oferecendo esperança para a recuperação dos muriquis no estado.
