O Legado do Fusca ‘Vovô Ciço’
Um Fusca 1974 que atravessou gerações, carregando histórias e memórias, foi furtado em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Mais do que um automóvel, o veículo conhecido como “Vovô Ciço” representa meio século de vivências da família de Aruquia Castro. O furto ocorreu no domingo (4), dia das eleições, no bairro Eldorado, deixando um vazio que vai além da perda material.
Memórias e Transformações de Uma Família
O Fusca pertence à família Castro há cerca de 50 anos. Seu apelido é uma homenagem a Cícero, pai de Aruquia, que foi primeiro proprietário do carro e faleceu há mais de duas décadas. Funcionário da Volkswagen em São Bernardo do Campo (SP), Cícero adquiriu o veículo após deixar a fábrica, tornando-o um símbolo presente na rotina familiar. A mãe de Aruquia relembra que foi com ele que as filhas aprenderam a dirigir, reforçando a importância afetiva do automóvel.
Originalmente amarelo, o Fusca chamava atenção nas ruas de Ouro Preto, onde a família morava. A cor vibrante facilitava que a mãe de Aruquia soubesse onde o marido estava, já que o veículo era facilmente reconhecido na região. Para evitar essa exposição, Cícero pintou o Fusca de marrom, mas isso não diminuiu seu papel na vida familiar. O carro serviu para passeios, entregas da mercearia da família e até como meio de transporte durante as gestações.
Um Símbolo de Resistência e Cuidado
Após a morte de Cícero, o Fusca tornou-se uma herança material e emocional. Durante um período, ficou estacionado na Bahia, ainda com placa daquele estado, até que Aruquia decidiu trazê-lo de volta e iniciou um processo gradual de restauração. Sem emprego fixo e como mãe solo, ela investia o que ganhava em trabalhos e venda de doces para manter o veículo em condições. O automóvel ganhou ainda mais significado com os filhos de Aruquia, especialmente para um deles que, apesar de não ter conhecido o avô, cresceu ouvindo suas histórias vinculadas ao Fusca.
O automóvel segue cumprindo uma função prática e afetiva na família. Aruquia o utiliza nos deslocamentos diários e para ajudar nos cuidados com um dos filhos, que sofre de atrofia muscular espinhal (AME). Para ela, o Fusca é um patrimônio inestimável, uma herança que vai além do valor financeiro.
O Furto no Dia da Eleição e a Busca pela Recuperação
O desaparecimento do “Vovô Ciço” ocorreu no dia da eleição, quando uma mulher estacionou o Fusca na rua Norberto Mayer, no bairro Eldorado, para votar. Em cerca de 30 minutos, ao retornar, notou que o veículo havia sido levado. O furto foi registrado na Polícia Militar às 13h50, e a família mobilizou-se para encontrar imagens de câmeras de segurança que possam indicar o trajeto do carro. Uma gravação obtida mostra o Fusca em uma rua próxima após o furto.
A perda tem um peso emocional profundo para Aruquia, que associa o automóvel à história e à trajetória de sua família. Ela descreve o sentimento como uma tristeza intensa misturada com revolta, pois o carro representa muito mais do que um meio de transporte: é parte da vida que ajudou a sustentar a família.
Apesar do abalo, a família mantém a esperança de recuperar o Fusca e restaurar parte da sua história. Aruquia acredita que quem levou o carro se arrependerá e devolverá o “Vovô Ciço”, reconectando a família com uma herança que ultrapassa gerações e se traduz em cuidado, memória e resistência.
