O artista que trouxe o Caçador de Marte de volta à vida
Se o renomado artista Roy Lichtenstein deu novos contornos aos quadrinhos em suas obras, o espanhol Javier Rodríguez resgata esses elementos em seu trabalho como ilustrador, produzindo histórias em quadrinhos vibrantes e repletas de referências pop. Em sua mais recente obra, ‘Absolute Caçador de Marte’ (Panini), ele se une ao roteirista Deniz Camp para reimaginar a origem do icônico personagem da DC Comics, J’onn J’onzz, que já foi conhecido no Brasil como Ajax, o marciano.
Conforme vários outros heróis da editora, como Batman e Superman, o Caçador de Marte, que foi criado em 1955 por Joseph Samachson e Joe Certa, passa por um reboot alternativo no universo Absolute, que traz uma perspectiva mais sombria e complexa. Neste novo contexto, os super seres emergem em cenários sociais e políticos desafiadores, frequentemente sem o suporte que tradicionalmente têm. Bruce Wayne não é um bilionário, mas sim um trabalhador comum, e a Mulher-Maravilha não é criada por amazonas, mas por uma bruxa nas profundezas do inferno.
Um sucesso editorial impressionante
A linha Absolute tem sido um dos grandes destaques editoriais dos últimos tempos, atingindo a marca de cerca de 12 milhões de cópias vendidas, de acordo com o The Hollywood Reporter. A proposta desta série é explorar novas origens e conflitos mais profundos, colocando heróis clássicos em dilemas que desafiam a percepção do público desde o início.
Na narrativa elaborada por Camp e Rodríguez, o super-herói é uma entidade marciana que penetra na mente de um policial atormentado chamado John Jones. À medida que crimes perturbadores se intensificam, a linha que separa identidade, memória e consciência se desfaz, revelando um protagonista dividido entre sua essência alienígena e a vulnerabilidade psicológica do corpo humano que ocupa.
Preparativos para a CCXP 2024
Javier Rodríguez, que participará da CCXP 2024 no Brasil, explica que o convite para trabalhar no Caçador de Marte surgiu enquanto ele ainda finalizava a arte para ‘Zatanna: quebrando tudo’ (Panini), um quadrinho que conquistou o prêmio Eisner de melhor série limitada no ano passado, sob a escrita de Mariko Tamaki.
— Deniz visualizava os pensamentos dos personagens como uma fumaça colorida que emergia das orelhas das pessoas — revela o artista de 53 anos. — E o Caçador de Marte, originalmente um ser multifacetado, fazia parte dessa fumaça.
Rodríguez optou por resgatar as cores tradicionais do personagem, uma rica paleta de verde, azul, vermelho e amarelo, para desenvolver sua própria identidade visual.
— A partir disso, desenvolvi uma paleta com mais três cores complementares que criassem um impacto visual significativo nas páginas, as quais sempre deveriam ser as mesmas, para que os leitores pudessem reconhecê-las de imediato. Então, construí a paleta de todo o gibi em torno dessa base. Dessa maneira, quando os pensamentos coloridos aparecem, eles vibram em contraste com o resto — explica.
Uma visão ousada do icônico personagem
O resultado visual é surpreendente, mas Rodríguez também se destacou ao reinterpretar fisicamente J’onn J’onzz.
— Para o Caçador de Marte, eu sabia que precisava ser algo marcante, já que ele dividiria a cena com Batman, Superman e Mulher-Maravilha, então me arrisquei em um design mais radical. — relata Rodríguez. — Saí da minha zona de conforto e busquei a ajuda de um amigo que me sugeriu usar massinha de modelar. Comprei dois quilos de massinha verde e criei várias figuras até chegar à ideia ideal. O conceito era um único olho, um cíclope, uma espécie de farol, que pudesse ser reconhecido de diversas maneiras. Uma grande máscara ancestral com um ponto vermelho que evocasse outras associações.
Apreciação pelas personagens femininas
Além de ‘Zatanna’, Rodríguez tem um histórico de desenhar personagens femininas emblemáticas tanto da DC Comics quanto da Marvel, como Mulher-Aranha, Gata Negra e Spider-Gwen.
— Eu me interesso pelas personagens femininas, buscando aprender com suas histórias — afirma o ilustrador. — Penso que a melhor maneira de criar um personagem que se conecte com o público é fazer muitas perguntas, tal como um leitor faria, e, com as respostas, decidir o que mostrar e o que omitir para contar a história da forma mais efetiva.
Trajetória no mundo dos quadrinhos
Antes de se estabelecer no mercado estadunidense de quadrinhos, Rodríguez trabalhou em seu país natal, especialmente em publicações como ‘El Víbora’. Para ele, a essência do trabalho permanece a mesma, independentemente da plataforma:
— Encaro todos os meus projetos de maneira semelhante. Pergunto-me: o que quero contar? Para quem? Na ‘El Víbora’, trabalhava com capítulos mensais de 8 a 10 páginas, enquanto os quadrinhos convencionais têm cerca de 20 páginas. Procuro encontrar o que há em comum entre os formatos e suas particularidades. Uma vez que compreendo isso, busco explorar os limites que cada um proporciona. Trabalhar com a linguagem da forma mais pura é o que mais me inspira.
