El Niño deve alterar o clima de Minas Gerais a partir de setembro
Minas Gerais se prepara para enfrentar os efeitos do fenômeno climático El Niño, que deve retornar de forma severa a partir de setembro deste ano. Caracterizado pelo aquecimento da superfície do Oceano Pacífico, o El Niño traz mudanças significativas ao clima, com possibilidade de ondas de calor intensas e chuvas fortes e concentradas em poucos dias no estado.
Segundo dados divulgados pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a probabilidade de ocorrência de um El Niño forte ou muito forte é de 70%. Wellington Lopes Assis, professor do Instituto de Geociências da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ressalta que, apesar do fenômeno ainda estar na fase entre fraco e moderado, há expectativa de que ele evolua para níveis mais intensos. “No El Niño clássico, em Minas Gerais, as temperaturas costumam ficar acima da normalidade”, explica o especialista.
Precipitações concentradas e ondas de calor preocupam climatologistas
O geógrafo e cientista do clima Lucas Oliver destaca que “nem todo El Niño é igual”, o que dificulta prever com exatidão seus efeitos. Ainda assim, ele aponta que o estado deve registrar uma redução na quantidade de dias chuvosos, mas com volumes elevados de água nesses períodos. Em Belo Horizonte, por exemplo, a média anual de precipitação durante o período chuvoso é de cerca de 1500 milímetros, distribuídos ao longo de vários dias, o que reduz o risco de desastres. Com o El Niño, no entanto, esses volumes podem se concentrar, aumentando chances de inundações, alagamentos e deslizamentos.
Para a capital mineira, Oliver prevê episódios de chuva em julho e agosto, essenciais para evitar queimadas, mas alerta que a partir de setembro o calor deve intensificar-se. “A partir de outubro, teremos ondas de calor marcantes”, afirma. Ele também lembra que Minas Gerais abriga Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, uma das cidades mais quentes do país, onde as ondas de calor podem ser ainda mais severas. “Ondas de calor são períodos de quatro ou cinco dias com temperaturas 2 ou 3 graus acima da média. Além disso, o calor intenso aumenta a capacidade do ar de reter vapor, o que pode resultar em grandes pancadas de chuva. O governo precisa se preparar para esses desafios”, alerta Oliver.
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Medidas do governo e desafios para a prevenção
Na última segunda-feira (8), o governador Mateus Simões (PSD) anunciou o Plano Estadual de Enfrentamento aos Incêndios Florestais, com orçamento previsto de R$ 440 milhões para os próximos cinco anos. O governo também criou um grupo de especialistas para monitorar eventos climáticos extremos, mas especialistas consideram que as ações ainda são insuficientes diante dos riscos.
Em âmbito federal, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já sinaliza para o risco climático elevado esperado para a segunda metade do ano. Entre as medidas estão o reforço na estrutura de combate a incêndios, ampliação em 26% do efetivo de brigadistas federais, financiamento a iniciativas de prevenção e a instalação de bases estratégicas, como na Amazônia.
Minas Gerais, contudo, enfrenta desafios específicos devido ao enfraquecimento do Programa de Prevenção e Combate a Incêndios Florestais, conhecido como Força Tarefa Previncêndio (FTP). A gestão do ex-governador Romeu Zema (Novo) transferiu, em 2024, a coordenação operacional da FTP para o Corpo de Bombeiros, o que, segundo Francisco de Assis da Silva Jr, diretor de políticas ambientais do Sindicato dos Servidores Públicos do Meio Ambiente no Estado de Minas Gerais (Sindsema), resultou na perda da expertise que o Instituto Estadual de Florestas (IEF) possuía na área. “O Corpo de Bombeiros atua bem na zona urbana, mas não tem a mesma experiência dos brigadistas conveniados”, destaca.
Prevenção, acolhimento e adaptação: os caminhos para Minas Gerais
Para o geógrafo Lucas Oliver, o governo mineiro deve focar em ações imediatas como treinamento de equipes, geração de renda para populações afetadas e criação de espaços de acolhimento para vítimas de desastres climáticos. A médio prazo, a construção de cidades adaptadas ao clima é fundamental. “Devemos preparar espaços para refugiados climáticos, como quadras e escolas, e estabelecer protocolos claros. Áreas de risco não são apenas de chuva, mas de deslizamento e morte. O perigo não está na chuva em si, mas no risco que ela representa”, analisa.
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El Niño e as mudanças climáticas: um ciclo que se intensifica
O El Niño é um fenômeno natural que altera a circulação atmosférica ao aquecer as águas do Pacífico Equatorial e Tropical, provocando modificações globais no clima, como variações na temperatura, regime de ventos e volume de chuvas, fenômenos conhecidos como teleconexões, segundo Wellington Lopes Assis. Atualmente, o fenômeno já está se manifestando, embora sua confirmação oficial só ocorra após três meses consecutivos de manutenção dessas condições, prevista para setembro de 2026.
As mudanças climáticas intensificam o El Niño, que por sua vez contribui para o aumento da temperatura global. Oliver ressalta que cada episódio do El Niño associado ao aquecimento global impede o retorno ao padrão climático anterior. “Isso ocorreu em 1982, 1998, 2016 e 2024. Se este ano o El Niño for forte, a temperatura da Terra continuará subindo, trazendo mais eventos climáticos extremos”, conclui o especialista.
Com a previsão de chuvas concentradas e ondas de calor, Minas Gerais precisa se preparar para os impactos do El Niño em 2024, reforçando a prevenção e a adaptação diante das mudanças climáticas que já fazem parte da rotina do estado.
