O Papel Fundamental dos Diretores Escolares
Claudia Costin, presidente do Instituto Salto e ex-secretária de Educação do Rio, juntamente com Rafael Parente, diretor-executivo do Instituto e PhD em educação pela NYU, reconhecem a relevância do diretor de escola na estrutura educacional brasileira. Todos os dias, aproximadamente 46 milhões de estudantes frequentam instituições de ensino no país, cada um sob a supervisão de um diretor, que desempenha um papel decisivo na organização do trabalho pedagógico, no apoio aos professores e na implementação efetiva das políticas educacionais em sala de aula. No entanto, essa função essencial, muitas vezes, é ocupada por profissionais que não dispõem da formação necessária para gerenciar uma instituição educacional complexa.
Nos últimos anos, o Brasil tem investido recursos significativos na educação e avançado na implementação de políticas públicas relevantes, incluindo a ampliação do financiamento e a definição da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Apesar disso, dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) revelam que cerca de 50% dos jovens brasileiros de 15 anos não atingem o nível básico em leitura e interpretação de texto. Essa lacuna no aprendizado gera uma perda de oportunidades em termos de crescimento econômico, inovação e mobilidade social, além de comprometer a produtividade futura do país. Uma parte crucial desse problema reside na liderança escolar, frequentemente subestimada.
A Necessidade de Valorização da Liderança Escolar
O Brasil só conseguirá um avanço consistente na aprendizagem quando tratar a seleção e a formação de diretores como uma política estratégica de Estado, e não meramente como uma questão administrativa. De acordo com o Censo Escolar de 2024, apenas 22,6% dos diretores da educação básica possuem formação específica em gestão escolar. Entre os quase 164 mil diretores identificados, três em cada quatro assumiram suas funções sem a preparação adequada. É como se um hospital tivesse um diretor clínico sem conhecimento em gestão — uma realidade que se aplica às nossas escolas.
Pesquisas educacionais realizadas nas últimas duas décadas demonstram de forma consistente que a liderança escolar é o segundo fator mais impactante na aprendizagem dos estudantes, com o trabalho do professor ocupando a primeira posição. Um estudo abrangente, envolvendo mais de 200 pesquisas e publicado pela Wallace Foundation, corroborou essa afirmação. A diferença entre um diretor bem preparado e um despreparado pode significar até três meses a mais de aprendizagem para todos os alunos de uma escola. Em contextos de maior vulnerabilidade social, esse impacto tende a ser ainda mais acentuado.
A Transformação pela Liderança Escolar
A razão para essa influência se dá pelo fato de que o diretor é a única figura da escola capaz de afetar simultaneamente todos os professores e alunos. Um professor excepcional pode transformar a experiência de uma turma, mas um diretor competente tem o potencial de revolucionar toda a escola. É o diretor quem cria as condições necessárias para uma educação de qualidade, organizando o trabalho pedagógico, monitorando resultados e apoiando o desenvolvimento profissional dos professores.
É crucial reconhecer que as competências necessárias para uma direção eficaz não surgem automaticamente a partir da experiência prévia como docente. Tratar a direção escolar como uma continuidade natural da carreira docente, promovendo bons professores a gestores sem a formação adequada, é um erro que a literatura educacional aponta há décadas.
Avanços e Desafios na Formação de Diretores
Nos últimos anos, algumas melhorias têm sido observadas. Em 2022, cerca de 66% dos diretores municipais eram escolhidos apenas por indicações políticas. Entretanto, em 2024, esse número caiu para 39,6% devido às novas exigências do Fundeb, que incentivam critérios técnicos na seleção. Embora essa mudança seja significativa, aprimorar a seleção sem oferecer a devida formação para os novos diretores representa apenas metade da solução. A seleção está evoluindo, mas a formação ainda precisa de um desenvolvimento robusto.
Experiências práticas, como as implementadas em Pernambuco desde 2007, mostram o potencial transformador dessa agenda. As reformas voltadas para a profissionalização da seleção e formação de diretores resultaram em alguns dos maiores avanços no ensino médio, colocando o estado como referência nacional nesta etapa. A evidência internacional também apoia essa abordagem: distritos escolares nos Estados Unidos que investiram na formação estruturada de diretores observaram aumentos significativos na aprendizagem, com custos reduzidos a menos de meio por cento do orçamento educacional.
Construindo uma Liderança Escolar Eficaz
O Brasil possui bases importantes para avançar nessa direção. Em 2023, o Conselho Nacional de Educação estabeleceu uma Matriz Nacional de Competências para diretores escolares, oferecendo um guia claro para a formação desses profissionais. Nos últimos anos, o tema da liderança escolar tem ganhado destaque no jornalismo, pesquisas e debates públicos, sinalizando um amadurecimento da agenda. Algumas redes estaduais e municipais já estão desenvolvendo experiências promissoras, e existem exemplos concretos no Brasil e no exterior sobre como formar líderes escolares adequadamente. O grande desafio, agora, é transformar essas iniciativas em políticas públicas contínuas, que sejam capazes de se expandir e impactar todas as escolas do país.
O Brasil tem investido em currículo, avaliação, tecnologia e formação de professores, todos elementos essenciais. Contudo, nenhuma dessas políticas alcança seu potencial pleno sem uma liderança qualificada nas escolas. Diretores capacitados desempenham um papel fundamental em qualquer sistema educacional: eles transformam boas políticas em práticas efetivas. Portanto, formar líderes escolares não é um custo adicional; é a engrenagem que garante que todo o sistema funcione de forma harmônica e produtiva.
