Sabores que contam histórias
Na 6ª Feira Estadual da reforma agrária de Minas Gerais, a Culinária da Terra revelou que a luta pela terra se manifesta também na cozinha. O espaço reuniu sabores, práticas culturais e narrativas transmitidas de geração em geração, transformando a produção dos assentamentos e acampamentos do MST em pratos reais e cheios de significado.
Cada refeição servida carrega a trajetória das famílias que dedicam o trabalho ao preparo da terra, ao plantio, à colheita e à organização em cooperativas, enfrentando desafios para levar alimento de qualidade até a mesa da população. Além disso, o preparo é feito por cozinheiras e cozinheiros que mantêm vivas receitas, temperos e técnicas tradicionais das culturas camponesa e popular.
Culinária como resistência e cultura
Para Aguinaldo Batista, militante do MST no Triângulo Mineiro, o espaço da Culinária da Terra representa cultura, tradição e orgulho. “É um lugar onde encontramos pessoas, trocamos ideias, mostramos nosso trabalho e fortalecemos laços. Também exibimos o fruto da luta pela terra”, comenta.
Esse ambiente não é apenas uma praça de alimentação, mas parte essencial da proposta política e cultural da Feira. Ao conectar a produção do campo aos saberes culinários, o espaço evidencia um percurso frequentemente invisibilizado: o alimento passa pelas mãos de quem cultiva, cuida, colhe, transporta e cozinha antes de chegar ao prato.
Rosângela, militante do MST na Zona da Mata, ressalta a importância desse contato para aproximar a população do Movimento. “Participo de várias feiras estaduais e acredito que esse espaço ajuda as pessoas a conhecerem melhor o MST. Muitos chegam curiosos, fazem perguntas sobre o Movimento e a origem da comida”, relata.
Preservação da memória e diversidade alimentar
Com pratos preparados por famílias de diferentes regiões de Minas Gerais, a Culinária da Terra também atua na preservação da memória e das tradições populares. Ingredientes como milho, mandioca, feijão, hortaliças, queijos e doces da agricultura familiar carregam muito mais que sabor — refletem modos de vida, relações comunitárias e conhecimentos acumulados ao longo do tempo.
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As receitas revelam características dos territórios e mantêm vivos saberes ameaçados pelo sistema alimentar padronizado. Em vez de oferecer uma comida sem origem, o espaço apresenta pratos que permitem reconhecer quem produziu os ingredientes e quais relações possibilitaram aquele alimento.
Muitas pessoas se aproximam da Reforma Agrária pela primeira vez por meio da comida. O visitante da Feira conhece os assentamentos não apenas pelos debates, mas também pelos aromas, sabores e cuidado presentes em cada prato. Assim, a Reforma Agrária deixa de ser uma ideia distante e se torna experiência concreta.
Desafio ao agronegócio e ultraprocessados
A Culinária da Terra questiona o modelo do agronegócio, baseado na concentração fundiária, uso intensivo de agrotóxicos e produção de commodities para exportação. Enquanto esse sistema transforma terra e alimento em mercadoria, as famílias do MST demonstram que é possível produzir de forma diversa, cooperativa, respeitando a natureza e garantindo alimentação para a população.
Nas cidades, a falta de tempo, a redução dos espaços para cozinhar e a presença crescente de alimentos ultraprocessados afastam as pessoas da origem e dos hábitos alimentares. Sabores e receitas tradicionais dão lugar a produtos padronizados, fabricados para durar e ampliar lucros de grandes empresas.
Dega Barbosa, feirante e militante do MST na Região Metropolitana de Belo Horizonte, destaca o papel da Feira para mostrar que é possível se alimentar melhor. “Fazemos comida caseira, que exige tempo, com alimentos sem veneno. Na correria, às vezes esquecemos que comida não serve só para matar a fome, mas também para fornecer os nutrientes necessários”, explica.
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Fortalecimento da agricultura familiar e políticas públicas
Ao valorizar ingredientes reconhecíveis e refeições preparadas por quem conhece a terra, a Culinária da Terra reforça que comida saudável pode ter identidade, história e sabor. Essa prática evidencia a organização das famílias Sem Terra e a importância das políticas públicas para a agricultura familiar e camponesa.
Produzir alimentos saudáveis vai além do esforço individual. Depende de acesso à terra, crédito, assistência técnica, infraestrutura, cooperativas e condições adequadas para transporte e comercialização.
O contato direto entre produtores e consumidores na Feira ajuda a derrubar preconceitos contra o MST. Muitos chegam conhecendo apenas versões distorcidas. Lá, encontram famílias trabalhando, cozinhas em atividade e uma variedade de alimentos produzidos nos territórios da Reforma Agrária.
Impactos concretos da Reforma Agrária
A Culinária da Terra mostra na prática o que nasce quando a terra cumpre sua função social. Onde antes havia concentração e improdutividade, a Reforma Agrária gera trabalho, renda, cultura, comunidade e alimento.
Mais do que saciar a fome, a Culinária da Terra alimenta a conexão entre campo e cidade. Cada panela traz a memória das comunidades, a força da organização coletiva e a defesa de um sistema alimentar que valoriza a vida. Lutar pela terra é também lutar pelo direito de saber de onde vem a comida, quem a produz e quais histórias queremos manter vivas em nossas mesas.
