Emendas parlamentares e estratégia política em Minas Gerais
Eduardo Cunha (Republicanos-MG), ex-presidente da Câmara dos Deputados, é alvo de investigação por ter direcionado emendas parlamentares totalizando R$ 6,1 milhões para municípios em Minas Gerais onde adquiriu emissoras de rádio. A ação faz parte de uma estratégia para fortalecer a imagem política de Cunha no estado, onde planeja disputar uma vaga como deputado federal, após anos de atuação no Rio de Janeiro.
Prefeitos das cidades beneficiadas atribuíram publicamente a indicação das emendas a Cunha, mesmo que o ex-deputado afirme ter apenas sugerido os recursos a colegas de partido. Essa contradição é central no inquérito da Polícia Federal (PF), que aponta Cunha como o verdadeiro solicitante das emendas, configurando possível fraude ao mascarar o real autor dos pedidos nos registros oficiais da Câmara.
Conflito sobre autoria das emendas e investigação da PF
Em entrevista recente à Rádio Maravilha, rede de rádio da qual é proprietário, Cunha afirmou ter sugerido algumas propostas de emendas ao partido e que o líder da bancada acolheu parte delas. Contudo, a PF identificou que as emendas para a área da saúde em 21 municípios mineiros no ano passado foram efetivamente solicitadas por ele. A investigação indica que a inclusão de outros parlamentares como autores oficiais das emendas serviu para “escamotear o real interessado”.
Um exemplo claro dessa situação é o município de Varjão de Minas, onde o prefeito Rafael de Toni (PL) recebeu Cunha em um encontro de lideranças em outubro de 2025. Três dias antes, uma emenda de R$ 590 mil para a saúde básica do município foi apresentada pela Comissão de Saúde da Câmara, atribuída à liderança do Republicanos, exercida na época pelo deputado federal Gilberto Abramo (MG), aliado de Cunha. Posteriormente, o prefeito divulgou que Cunha foi o autor da indicação, creditando-o como “deputado federal (MDB-RJ)”, cargo que ele ocupava até sua cassação em 2016. A prefeitura de Varjão de Minas não respondeu aos pedidos de manifestação até o fechamento da reportagem.
Articulações políticas e recursos para saúde em municípios mineiros
Em Piau, o presidente da Câmara de Vereadores, Mica Carvalho (MDB), declarou que articulou, junto com Eduardo Cunha, o envio de R$ 300 mil para a saúde municipal. Carvalho agradeceu publicamente ao lado do prefeito Wander Loures (PP). A investigação da PF confirma que o recurso foi aprovado pela Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados em dezembro.
Na cidade de Guarani (MG), onde Cunha adquiriu uma emissora de rádio, o prefeito Emerson Patrick (Republicanos) divulgou um vídeo em dezembro anunciando a obtenção de uma emenda parlamentar de R$ 250 mil por meio da bancada mineira. Embora Cunha não tenha sido mencionado diretamente, a emenda consta em documentos da Polícia Federal vinculando os recursos indicados por ele. Antes disso, Cunha já havia adquirido a Rádio Tropical FM 92,7, posteriormente renomeada para Rádio Maravilha, cuja operação foi transferida para Ubá, município com população dez vezes maior.
Expansão de emissoras e financiamento público
Cunha adotou a mesma estratégia em Raul Soares (MG), outro município da Zona da Mata, onde destinou R$ 472,9 mil em emendas no final de 2025. No mesmo ano, ele comprou a Rádio Sociedade Entre Rios, visando ampliar a transmissão para cidades maiores como Ipatinga e Caratinga.
Ao ser questionado pelo GLOBO, Eduardo Cunha negou relação entre as emendas e a presença das rádios nas cidades, afirmando que já planejava transferir as emissoras antes da destinação dos recursos. Reafirmou que não fez indicações formais, mas apenas sugestões. Na decisão que bloqueou R$ 6,1 milhões em seus bens, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino destacou a “acentuada ingerência” de Cunha sobre esses recursos, mesmo sem ocupar mandato.
“Não sou autor de emenda nenhuma, nem posso sê-lo. Sou parte da sociedade, assim como os prefeitos que me procuram e pedem recursos”, declarou Cunha em entrevista à rádio 98,7 de Belo Horizonte.
