Projeto de Retorno à Câmara Federal
Desde que deixou a prisão em 2021, Eduardo Cosentino da Cunha tem direcionado esforços para retomar seu mandato na Câmara dos Deputados. O ex-deputado carioca, cassado por ocultar milhões em conta secreta na Suíça, comandou a Casa com mão firme entre 2015 e 2016, período marcado por escândalos de corrupção e pelo papel central no processo de impeachment contra Dilma Rousseff.
No Rio de Janeiro, seu plano inicial fracassou. Em 2018, lançou a candidatura da filha Danielle Cunha, que, apesar de divulgação e promessa de uma atuação mais vigorosa, conquistou apenas 13 mil votos e não se elegeu. Na eleição seguinte, porém, Danielle obteve êxito.
Para não disputar a mesma base eleitoral da filha, Eduardo transferiu seu título eleitoral para São Paulo em 2022. Com a devolução provisória dos direitos políticos, tentou vaga de deputado federal pelo PTB, obtendo somente 5 mil votos. Em 2024, voltou o foco para Minas Gerais, estado onde não reside, nem possui laços familiares ou empresariais, justificando sua escolha com a frase “Minas é a síntese do Brasil”. Ainda assim, seu objetivo é conquistar votos para se eleger deputado pelo Republicanos.
Investimentos e Presença em Minas Gerais
Para viabilizar sua candidatura, Cunha tem percorrido cidades mineiras utilizando um helicóptero Agusta A109, equipamento que, novo, ultrapassa 7 milhões de dólares. Além disso, patrocina o Uberaba Sport Club e investe na expansão da rádio Maravilha FM. Inaugurada em julho do ano passado em Belo Horizonte, com programação evangélica, a emissora ampliou sua cobertura para quase 60% do estado, com estúdios em 32 cidades, conforme reportagem da revista piauí.
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Questionado sobre os gastos, Cunha afirma que ainda não está em período eleitoral para prestar contas detalhadas. Ainda que sua movimentação se assemelhe à de muitos candidatos, destaca-se o uso controverso de recursos públicos.
Distribuição de Verbas Públicas e Investigação da Polícia Federal
Nos últimos meses, diversos políticos mineiros agradeceram publicamente a Cunha por verbas federais destinadas a suas cidades. O vereador Guilherme Coxa (PP), ex-presidente da Câmara de João Pinheiro, celebrou a destinação de R$ 1,05 milhão para a saúde local, coincidente com a chegada de Cunha para aquisição de rádios integradas à rede Maravilha.
Sem ocupar cargo público, Cunha conseguiu distribuir verbas federais com rapidez e facilidade que intrigavam concorrentes. Em julho, uma investigação da Polícia Federal revelou que o ex-deputado manipulava recursos do orçamento secreto da Câmara, atuando como se ainda fosse parlamentar. O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou o bloqueio de R$ 6,15 milhões, distribuídos em 21 emendas para cidades mineiras, identificadas como forjadas para ocultar o verdadeiro beneficiário.
O esquema funcionava com deputados aliados figurando como autores das emendas, enquanto Cunha coordenava a destinação das verbas. Na cidade de Manhuaçu, por exemplo, a verba era atribuída ao deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), embora Cunha exigisse que fosse creditada a Gilberto Abramo, seu aliado. Segundo o relatório da Polícia Federal, Cunha atuava como “agente privado com poderes políticos equivalentes ou superiores aos de parlamentares”, configurando grave desvio de finalidade e comprometendo a transparência das emendas, que deveriam atender demandas legítimas de representantes eleitos.
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Em resposta à revista piauí, a assessoria de Cunha afirmou que as emendas foram “oficialmente apresentadas e indicadas por parlamentares, bancadas ou órgãos legitimados, os únicos que possuem competência sobre o processo orçamentário”.
Reações e Disputa Política em Minas
Em agosto do ano passado, o senador Cleitinho Azevedo, colega de Cunha no Republicanos, criticou duramente sua chegada a Minas Gerais, chamando-o de “canalha” e “vagabundo” em vídeo no Instagram. Cunha reagiu processando o senador no Supremo Tribunal Federal.
Diante da resistência, Cunha tentou migrar para outros partidos, como PL, Podemos, PP, PSD, Avante e MDB. Embora líderes nacionais mostrassem interesse, as bancadas estaduais recusaram a filiação, preocupadas com os prejuízos eleitorais decorrentes do passado controverso do ex-deputado. Sem alternativa, Cunha permaneceu no Republicanos, onde a filiação é vista de forma discreta pelos dirigentes, que não confirmam ter sido uma decisão do diretório estadual.
Além da falta de opções partidárias, a permanência no Republicanos inclui estratégia eleitoral. Gleidson Azevedo, irmão do senador Cleitinho e candidato a deputado federal, tem forte apoio em Divinópolis, o que pode ampliar o coeficiente eleitoral e, ironicamente, beneficiar a candidatura de Eduardo Cunha, apesar das divergências entre eles.
