Educação em Tempo Integral: Um Caminho para Avanços na Aprendizagem
A ampliação da oferta de educação em tempo integral (ETI) tem ganhado destaque nas políticas educacionais brasileiras. Isso se deve ao fato de que a jornada escolar semanal no Brasil ainda é inferior à de muitos países, o que impacta diretamente o aprendizado dos estudantes. Em 2018, a média semanal no Brasil era de 27,5 horas, significativamente abaixo da maioria dos países da OCDE e também de nações latino-americanas como Chile, Costa Rica, Peru e Colômbia.
Nos últimos anos, o país avançou na expansão das matrículas em tempo integral: de 15,1% em 2021 para 25,8% em 2025 na educação básica (educação infantil, ensino fundamental e médio). Essa evolução representa um avanço considerável em apenas quatro anos.
Impactos Positivos da Educação em Tempo Integral
Estudos recentes indicam que a adoção da jornada integral traz ganhos reais para estudantes e suas famílias. Uma pesquisa abrangente sobre a América Latina (Quintão et al., 2026) destaca melhorias significativas na proficiência dos alunos no ensino fundamental e médio, além de efeitos positivos no desenvolvimento socioemocional. Embora os impactos sobre abandono escolar e reprovação não sejam conclusivos, a ETI contribui para a redução da gravidez na adolescência e da criminalidade em áreas beneficiadas.
Importante notar que os benefícios são mais acentuados em contextos vulneráveis, especialmente em escolas públicas e rurais. Ou seja, a política promove não só eficácia educacional, mas também equidade. As famílias também são impactadas: mães e avós conseguem maior inserção no mercado de trabalho, consolidando a ETI como uma política que integra educação, cuidado e inclusão produtiva.
Desafios de Minas Gerais na Expansão da Educação Integral
Apesar dos avanços nacionais, Minas Gerais tem apresentado progresso limitado na ampliação da educação em tempo integral na rede estadual. Ao comparar os dados entre 2015 e 2025, fica claro que o estado ficou atrás de outros estados do Sudeste e do conjunto das redes estaduais brasileiras.
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Observando as etapas da educação básica, Minas apresenta percentuais inferiores em todas elas. Nos anos iniciais do ensino fundamental, o estado chegou a liderar entre 2015 e 2018, com 20,4% das matrículas em tempo integral em 2017, contra 12,6% na média nacional. Contudo, a partir de 2019, houve uma queda brusca para 4,7%, que não pode ser atribuída apenas à pandemia, pois já antecedeu a crise sanitária. Em 2025, Minas alcança apenas 6,4%, enquanto o país registra 11,9%.
Nos anos finais do ensino fundamental, o cenário é ainda mais preocupante. O avanço foi tímido, passando de 7,2% em 2022 para 8,7% em 2025, enquanto a média nacional subiu de 15,6% para 21,9% no mesmo período. Essa defasagem de 13,2 pontos percentuais é a maior entre as três etapas analisadas e ocorre justamente em uma fase crucial da vida escolar, marcada por desafios na aprendizagem e permanência dos adolescentes.
Já no ensino médio, Minas chegou a expandir rapidamente as matrículas em tempo integral, saindo de quase zero em 2015 para 21,9% em 2022, superando a média nacional de 19,5%. Entretanto, esse avanço não se manteve. Em 2023, o percentual caiu para 13,7%, enquanto o índice nacional continuou crescendo. Em 2025, Minas registra 16,5%, frente a 26,2% do conjunto das redes estaduais brasileiras.
Consolidar a Expansão para Garantir Resultados
Esses dados indicam que o problema de Minas Gerais transcende a quantidade atual de matrículas. A principal dificuldade está na continuidade dos avanços. O estado viu uma perda expressiva na oferta nos anos iniciais, estagnação nos anos finais e um recuo no ensino médio. Já, outras redes estaduais ampliaram a participação da ETI de maneira mais consistente.
Expandir a jornada escolar não significa apenas aumentar o tempo dentro da escola, mas garantir que esse tempo extra seja acompanhado de qualidade, promovendo melhores condições para a aprendizagem, convivência, cultura, esporte e desenvolvimento integral dos estudantes.
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A oferta de educação em tempo integral é uma política que, além de melhorar o desempenho acadêmico, fortalece a equidade e promove inclusão social. Minas Gerais já demonstrou capacidade para aumentar essa oferta, mas o desafio é transformar avanços pontuais em uma política estável e duradoura, alinhada às necessidades dos estudantes e das famílias.
Com o avanço observado em outras redes estaduais, Minas tem espaço para acelerar o processo, beneficiando especialmente os estudantes em contextos mais vulneráveis, que são os maiores beneficiários desta política.
Bruno Lazzarotti é doutor em Ciências Humanas: Sociologia e Política pela UFMG.
Felipe Di Mingo Mota Longo é graduando em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro e bolsista no Observatório das Desigualdades.
Marina Diniz Ferreira Pinheiro é graduanda em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro e bolsista no Observatório das Desigualdades.
