O Tuiuiú e Seu Refúgio no Centro-Oeste Mineiro
Ao pensar no Pantanal brasileiro, a imagem do tuiuiú (Jabiru mycteria), uma das aves mais emblemáticas dessa maior planície alagável do mundo, é imediata. Contudo, poucos sabem que essa espécie também encontrou um refúgio valioso nas várzeas do Rio São Francisco, em Minas Gerais, longe das terras pantaneiras tradicionais.
Com suas pernas longas, bico imponente, cabeça preta, corpo branco e uma marcante faixa vermelha no pescoço, o tuiuiú impressiona pelo tamanho e porte. Diferente das garças, que voam com o pescoço encolhido, essa cegonha mantém pescoço e pernas esticados durante o voo. Um exemplar adulto pode alcançar 1,60 metro de altura, ter uma envergadura de até 3 metros e pesar cerca de 8 quilos, configurando-se como a maior ave com capacidade de voo na maior planície inundável do planeta.
Registros Históricos e Presença em Minas Gerais
Na cidade de Arcos, no Centro-Oeste mineiro, os tuiuiús são vizinhos ilustres, comprovando que essa ave está a milhares de quilômetros do Pantanal. O biólogo Pedro Rocha, especialista em biodiversidade local, destaca que os primeiros registros da espécie na região remontam ao Brasil Império, com relatos do geólogo e naturalista alemão Barão de Eschwege, que visitou Minas entre 1811 e 1821 e já observava a presença do tuiuiú nas várzeas do Rio São Francisco.
“Desde os primeiros exploradores, o Rio São Francisco foi reconhecido como essencial para a ocorrência dessas aves típicas do Pantanal aqui na região”, explica Rocha. Isso reforça o papel do Velho Chico como um corredor ecológico fundamental para a sobrevivência da fauna aquática e das aves migratórias no interior mineiro.
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Adaptação e Migração em Busca de Água
As áreas úmidas do Rio São Francisco apresentam variações no volume de água, alternando períodos de seca e alagamento. Por isso, as aves que dependem desses ambientes, como o tuiuiú, exibem comportamento migratório para garantir acesso a recursos hídricos.
Entre novembro e março, a estação chuvosa inunda as planícies em Arcos, criando condições ideais para diversas espécies, incluindo algumas que nem sempre aparecem no Pantanal. Além do tuiuiú, a região abriga aves como cabeça-seca, colhereiro, maguari, pato-de-crista e várias espécies migratórias associadas à água.
Monitoramento de Casal e Reproduçã o na Várzea
Desde 2023, Pedro Rocha acompanha de perto um casal de tuiuiús em Arcos. Originalmente, o ninho estava em uma árvore em propriedade particular, mas após a retirada de árvores mortas, o ninho foi destruído. A ave territorialista não tardou a reconstruir seu lar em outra árvore próxima, no alto de uma margem do Rio São Francisco.
O biólogo observou todo o ciclo reprodutivo do casal, desde o acasalamento no final da estação chuvosa até a eclosão e desenvolvimento dos filhotes. Entre fevereiro e março, os adultos reforçaram o ninho com galhos e, entre abril e maio, começaram a chocar os ovos. Em pouco mais de três meses, os filhotes já deixam o ninho, permanecendo sob cuidados dos pais até ganharem independência, geralmente por volta de setembro.
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Alimentação e População Local
Na região, o tuiuiú se alimenta principalmente de caramujos nativos das várzeas e de peixes como o muçum, típico dos brejos locais. Pedro Rocha já identificou 11 ninhos em diferentes pontos de Arcos e observou grupos que chegam a reunir cerca de 200 indivíduos, o que destaca a importância da região para a manutenção de uma população expressiva dentro de Minas Gerais.
O Rio São Francisco como Berço da Biodiversidade
O Rio São Francisco, maior rio brasileiro que corre exclusivamente em território nacional, nasce em Minas Gerais e deságua no Oceano Atlântico, na divisa entre Alagoas e Sergipe. Com mais de 2.800 quilômetros de extensão, o Velho Chico sustenta uma biodiversidade rica e diversificada pelo interior do Brasil, incluindo ambientes que ainda resistem às pressões ambientais, garantindo a sobrevivência não apenas do tuiuiú, mas de diversas outras espécies de aves e mamíferos.
Segundo Pedro Rocha, “o Rio São Francisco mantém seus berçários, com peixes se reproduzindo e uma fauna que utiliza esse ambiente, o que traz esperança para a conservação desse importante rio que conecta o país e sua biodiversidade”.
